Todo dia ela faz tudo sempre igual

junho 4, 2010

Viver a rotina, o cotidiano, é uma arte: a arte de se acostumar com o que é real apesar de pouco provável.

Vivo na realidade do supremo absurdo. Se gosto de flores e poesia, a minha profissão é feita de marchas e frias palavras de ordem.
Se gosto do azul e do verde, os transformaram em uniformes para que eu possa me igualar aos outros, sem gosto e sem expressão.
Se gosto de ser assim, me punem até passar a ser assado e, quando assado for, me punem até fritar a motivação, por um motivo qualquer.
Desando a cada ultima forma, pois mudou a cozinheira e o bolo não coube naquela forma. Ontem sorria com doçura, hoje sorrio ainda mais, um riso agressivo de pura histeria.

Thomas Mann disse “A solidão engrena o original, o belo ousado e surpreendente, o poema. Mas engrenda também o inverso, o desmedido, o absurdo e ilícito”. Continuo sozinha, plena de uma solidão que ontem engrenava o poema e hoje engrena o ilícito.

Já fui e já voltei, mas não me pergunte os caminhos. Os que tracei sozinha fizeram sentido, os conhecia bem, suas dores e consequencias. Naqueles em que que fui guiada por senhores não tem rumo certo, eles não conhecem bussulas tampouco mapas.

Hoje me sinto atropelada, perdida, desnorteada. Sinto-me morta. Oca, reberveram em mim infinitos discursos repetitivos.
Não há vida possível neste deserto.

O cotidiano é uma arte, pena que assassinaram o artista.

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