A lembrança mais antiga

janeiro 18, 2009

Foi em uma tarde qualquer de 1948, não sei se importa tanto o quando. Às vezes, penso que a vida é um ciclo interminável de repetições, outras, que é um jogo de azar em um infinito dado de probabilidades do qual nunca conheceremos todos os lados. Nestes momentos, penso que uma vida é muito pouco para que tenhamos uma real dimensão do poder do acaso.
Foi naquela tarde, agora tão distante, que inaugurei minha memória. É a minha lembrança mais antiga, lembrança de imagens, texturas, cheiros, cores e vozes. Antes disso, apenas histórias contadas por pais e tios, histórias que hoje também tem seu lugar no meu carregado baú de recordações.
Lembro as sensações da grama pinicando a pele delicada de criança, da sombra das arvores, da mãe chamando quando o Sol não era mais que um suspiro vermelho. Lembro do cheiro da roseira logo ao lado.
Essas lembranças não vieram assim, fragmentadas, mas vieram todas de uma vez, como uma revelação, um susto, e com o tempo fui colocando em pratica a minha mania de organizar, quebrando aquele breve instante em inúmeros nomes, aprendidos bem mais tarde.
Não sei por que lembro desta tarde, mas sei que esse instante vem toda vez que a vida precisa mudar um pouco.
Hoje, uso ela como lastro, como rumo. Faço isso enquanto o acaso joga dado brincando com a minha vida.


Uma história sem medida

maio 11, 2008

Não tinha muitos gostos e seu único objetivo de vida era não ocupar espaço. Seu próprio corpo já anunciava isso: era pequena e macérrima. Mas, mais do que espaço físico, o que ela não queria ocupar de forma alguma era espaço na vida das pessoas. Desde criança tentava viver uma certa ausência de si mesma para os outros. Sempre quieta, tentava ficar atenta a todos os seus movimentos para que eles não atrapalhassem ninguém.

Sempre quieta, gostava da sombra. Não se mexia muito, mas também não ficava muito tempo parada no mesmo lugar, afinal, não queria marcar território.

Adulta, trabalhava e ganhava o seu sustento: não pesava a ninguém. No trabalho fazia tudo de forma eficiente, mas sem originalidade – não precisava e não queria ser notada.

Não gostava de participar de eventos, mas sempre que era convidada comparecia – sabia que sua ausência podia chamar mais atenção que sua presença. E, para os aniversários, havia criado uma estratégia para dar presentes que não trouxessem sua lembrança por muito tempo: escolhia sempre coisas que fossem consumidas e não deixassem rastros. Assim, para os homens sempre dava um bom vinho, e às mulheres presenteava com flores ou bombons. Variava com as mulheres, porque sempre a mesma coisa poderia tornar-se uma espécie de marca pessoal, e marca pessoal é coisa de gente espaçosa, pensava.

Até que, passou a acontecer algo estranho. Na rua, antigos colegas de escola a paravam para conversar, pessoas que ela jurava que, devido a sua conduta de invisibilidade, nunca poderiam lembrar dela. O pessoal do trabalho também passou a requisitá-la para todo tipo de evento, alguns chegavam a convidava-la para madrinha de casamento e batismo!

Essa situação a angustiava, estava bastante desnorteada e não conseguia compreender como isso era possível – sempre viveu para não ser lembrada e agora, além de lembrada, era homenageada!

Já se passara algum tempo quando um colega começou a desabafar com ela e pelas tantas passou a descreve-lhe os motivos do porque as pessoas lembravam tanto dela. Falou do seu cuidado no trato com os outros, da sua atenção a tudo, de ela ser boa ouvinte e estar sempre aberta para ouvir um desabafo. Falou-lhe dos presentes sempre certeiros, afinal, não havia homem desgostasse de um bom vinho para apreciar em um momento especial, e mulher que não melhorava o humor depois de um chocolate, ou que se inspirasse na beleza de uma flor para ficar, ela também, mais bela. Por isso tudo, pela sua conduta sempre discreta e – pasmem! – amiga, tornou-se querida.

Agora ela tinha que encarar a realidade: ocupava espaço sim, e não era pouco. Todas as suas tentativas de não ser notada transformaram-se em qualidades que a faziam lembrada.

Angustiou-se ainda mais, como viver ocupando tanto espaço?

Era querida, sim, mas não queria ser querida – queria simplesmente não ser.

Agora a vida lhe parecia pesada demais para ser vivida, e a morte exibicionista demais para ser tentada.

Mas a sorte estava a seu lado e, alguns dias depois de tão terrível revelação, foi atropelada e perdeu a memória.

Agora vivia tranqüila: podiam lembrar-se dela, mas ela não lembrava-se de ninguém. Descobriu que a única coisa que ocupa espaço nesta vida é a nossa própria memória.


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