Carta aos corações embrutecidos

novembro 11, 2007

 

“Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com os instantes vividos. Falo daqueles especiais, quando o tempo pára e a vida suspensa parece um céu estrelado, como a paz de um longo beijo. Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com as palavras doces, as frases de entrega, a felicidade espontânea, o afeto que ilumina.”
Célia Musilli

 

Há quanto tempo não sabes o que é viver um instante? Há quanto tempo simplesmente ignoras os instantes?

Eu sei, eu sei: já te entregastes em algum momento do passado com todo amor e delicadeza que havia em tua alma e destes derradeiros momentos de entrega guardas grandes cicatrizes que, às vezes, ainda doem. Nestes momentos de dor, lágrimas sinceras escorrem pelo teu rosto e descobres que ainda és capaz de chorar, mas as lágrimas que reinauguram os teus olhos ressequidos estão presas ao passado e a dor.

Sim, presas ao passado, pois, além das cicatrizes, trazes também o coração envolto em uma camada do mais duro diamante, carinho nenhum passa por este escudo de tristezas.

E é isto que fazes com os instantes vividos: os transforma em uma capa de insensibilidade, usas para esterilizar os sentimentos embrutecer o coração.

E, para não correr o risco de o diamante se quebrar, foges dos abraços, desmanchando laços antes que eles se estreitem, ficas surdo frente às palavras doces e os momentos de entrega só existem para a angustia.

Segues em um não sentir, ignorando o presente e arrastando pela vida o peso da tristeza. Acabas com os instantes para não vivê-los, transformando a existência em um bloco compacto de desespero. Por medo de sofrer, faz um pacto com o sofrimento escolhendo alimentar-se dele em intermináveis doses homeopáticas.

Com os instantes vividos fazes teu coração de pedra.


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