Paixões nômades

fevereiro 7, 2010

Recentemente, me apaixonei por uma cidade que já conhecia de outras visitas.

Foi um amor conquistado em um flerte longo baseado em detalhes sensoriais lentamente revelados.

Foi pelos sons: pelo sotaque, pelo barulho organizado das ruas, a música que toca em suas muitas rádios e nos seus becos; o ruído dos meus próprios passos ecoando ao sabor dos sapatos de frio – frio que faz com que o som seja muito mais límpido.

Foi pelas cores das flores nas praças.

Foi pela arquitetura romântica que toma conta das ruas e prédios deixando muito espaço para o verde.

Foi pelo desafio difícil de conquistar amizades novas, que desabrocham encantadoras.

Foi também por ser o endereço de uma antiga paixão, da qual persiste apenas um sabor de amor adolescente que já não nos cabe bem,  transmutada em uma madura admiração.

Foi pelos seus escritores e poetas, geniais e sujos, todos.

Foi pela minha própria solidão, ampliada cada vez que meus pés tocam seu solo.

Foi assim que me apaixonei por outra cidade no meu nômade cotidiano.

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Brasília decolando

junho 28, 2009

Já pousei e decolei várias vezes em Brasília e, em todas, não me furto a tentar divisar, pela janela da aeronave, o formato de avião que lhe deu Lucio Costa – mesmo que este preferisse que a cidade tivesse contornos de borboleta. Obviamente, não consigo adivinhar nesta profusão de nuvens e prédios o seu formato original e fico pensando se existiria um ângulo apropriado para isso. Sempre me convenço de que o plano piloto se perdeu e, então, me ponho a imaginar em que prédio, esquina ou cornubação isso teria acontecido. Às vezes sonho que o avião “Brasília” levantou vôo levando o Brasil no bagageiro e ninguém notou quando ou como – em uma provável decolagem não autorizada e sem plano de vôo.


Curitibas

agosto 17, 2008

Histórias diversas, caminhos que coincidiram – hoje, vivem juntas. Ambas mantêm uma relação com Curitiba.
Para uma, é a capital desconhecida de seu estado. Desconhecida sim, pois, mesmo visitas esporádicas não quebraram o estranhamento do novo, construída em cima da falta de um laço afetivo. Cidade linda, de uma beleza cuidadosamente planejada que convida para um passeio e incita a um suspiro “poderia viver aqui…”. Cidade dos olhares penetrantes, dos sorrisos contidos, das amizades raras e do sotaque carregado.
Para outra, a sua ex-futura-morada. Cidade das histórias que não acabaram e dos projetos interrompidos. A idéia de Curitiba é inspiração para o seu trabalho e a traz estranha sensação do que deveria ter sido e, simplesmente, não aconteceu. Ignora a sensação de pisar em suas pedras e a conversa de seu povo. Sua arquitetura, contudo, estala na ponta de seus dedos e guia as curvas de seus desenhos.
Curitiba são duas, Curitiba são muitas. São tantas quantos a conhecem: Curitiba é a minha, a nossa, relação com ela. Italo Calvino tivesse pisado nela, também lá encontraria uma cidade invisível.
Para essas duas garotas Curitiba é um ideal distante, embora estranhamente familiar.


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