No cafezinho

novembro 12, 2009

– Não entendo porque o chá e o café já não vêm adocicados…

– Simples. É para lembrar que ser doce é uma opção.


Zingiber officinalis

março 15, 2009
* Este texto faz parte da série “Os muitos nomes do gengibre”.

Nesta época eu estava envolvido com um projeto que estudava algumas plantas aromáticas comuns no Brasil, e também estava ocupado com alguns artigos mais antigos que falavam sobre plantas medicinais e dois grupos de estudos sobre… sobre o quê mesmo? Não lembro, só sei que os adorava, não tanto pelos artigos discutidos, mas porque no fim sempre acabávamos discutindo futebol ou falando mal de algum professor. (Nota: fazer projeto para estudar variedades de grama para gramado de futebol.) Enfim, estava imerso na rotina de um estudante de pós-graduação em biologia.
Parece incrível, mas eu gostava do que fazia. Ainda gosto. Ficava, todos os dias, pesquisando depois que a maioria dos funcionários já havia se retirado. Digo funcionários, porque sempre ficava uma dúzia de pesquisadores por lá. Fazer pesquisa e ficar depois do expediente são quase sinônimos. Nestes momentos, ficávamos cada um em seu canto, concentrados em seus estudos, sem aquele burburinho do dia. Mal trocávamos palavras. Quando muito, nós nos esbarrávamos na cafeteira – não sei pra que estudar tantos chás se no final sempre tomamos a mesma coisa.
Naquele dia sai do Laboratório um pouco mais cedo que o habitual e fazia o percurso entre o ponto de ônibus e a minha casa distraído, como sempre, quando fui arrebatado por um cheiro. Parei onde estava, tentando distinguir que cheiro era aquele e de onde vinha. Fiquei assim por alguns minutos, até perceber que aquele cheiro forte, agridoce, vinha de uma casinha antiga, cercada por arbustos e com um portão baixo. Nunca tinha prestado atenção naquela casa, mas sabia que ela estava ali desde sempre.
Fui embora com aquele cheiro penetrante embalando meus pensamentos. Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar de que planta vinha aquele aroma tão marcante.
Por alguns dias a cena se repetiu.
Certa noite tomei coragem e resolvi bater à porta. Uma senhorinha, tão branquinha que parecia um algodãozinho com seus setenta e tantos anos,  abriu a porta com um sorriso meigo e um olhar inquisidor. Cumprimentei-a e expliquei que há dias passava pela frente da casa e sentia um cheiro que não conseguia distinguir, perguntei se ela podia me dizer qual era. A senhora me convidou a sentar na cadeira da varanda e apreciar um chá, de onde vinha o cheiro que eu estava sentindo.
O bom-senso já havia me abandonado por completo quando me vi sentando na varanda da senhora prestes a saborear aquele intrigante chá.
O gosto forte e adocicado tomou conta da minha língua, e o vapor penetrava pelo meu nariz quando de minha boca escapuliu a palavra tão procurada:  Zingiber officinalis.
A senhorinha me olhou intrigada, quando expliquei que aquele era o nome do chá. Ela, agora, me olhava um olhar complacente e, com paciência, me dizia que eu estava enganado, que aquele chá era de gengibre e que ela vinha o tomando há alguns dias para curar uma rouquidão de gripe.
Desta forma simples aquela senhora me disse algo que tomou dezenas de páginas da minha dissertação.
Enquanto terminava de apreciar o chá, conversamos sobre banalidades e o sabor do gengibre me fazia pensar no quando fazia falta esta vivência das ruas.


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