Carta para o meu coração

novembro 23, 2013

Escrevo essa carta para mim. As vezes é necessário escrever para si mesmo para lembrar daquilo que quase esquecemos. Ou apenas para reavivar o prazer das palavras. 

Escrevo porque trago comigo a necessidade de comunicar e a necessidade de tentar descobrir a beleza das palavras. As vezes esquecemos que as palavras podem machucar, mas muito mais frequentemente esquecemos que as palavras podem ser belas. Esquecemos de fazer o elogio mais facilmente do que esquecemos dos xingamentos.

Falo para mim mesma assim, no plural, porque é mais fácil diluir a culpa quando colocamos a humanidade do nosso lado. Parece que o erro coletivo é mais fácil de admitir, afinal, “todo mundo erra”. Procuro esconder assim a culpa que é minha. É um belo recurso retórico, mas não adianta. Continuo a sentir culpa por todas as palavras rudes que disse e todas as indelicadezas que cometi. Elas não me deixam andar em paz. Tem dias que a culpa é tão grande que paralisa e tenho que fazer uma força sobre humana para continuar andando.
A culpa não é uma pedra em meu caminho, como diria Drummond, a culpa sou eu mesma. E não adianta desviar a rota, ela vai comigo. Isso é o mais dolorido de tudo: eu sei que não adianta fugir. O mundo não é o problema, o mundo é a minha desculpa, meu álibi, o meu problema sou eu. Quando entendi isso, tive que admitir que mudar de cidade novamente continuaria a não resolver os problemas.

Porque o problema, em parte é a própria vida. E não há solução, o jeito é encará-la.
Preciso aprender a ser mais gentil, a escolher soluções mais plausíveis e, sobretudo, a lidar melhor com esta culpa.

Esta carta eu escrevi para mim, porque precisava compartilhar esse sentimento com alguém. Mesmo que o único leitor possível seja o papel.

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