Um texto para o dia das mães

maio 11, 2014

Não sei o que é ser mãe.

Não sei da sensação de ter um ser humano crescendo em seu ventre, de aguardar meses pelo seu nascimento, amamentar, dar banho, limpar, ensinar as primeiras palavras e amparar os primeiros passos.

Não sei da dor do parto, de por de castigo, de tomar decisões importantes sobre a vida de outra pessoa, de deixar pela primeira vez na porta da escola.

Não sei da dura decisão de adotar a criança quando esta chega pela primeira vez aos seus braços – todas as mãe adotam seus filhos ao decidirem criá-los – e renovar os votos todos os dias ao se levantar pela manhã buscando fazer o seu melhor incessantemente por anos, até o final das suas vidas.

Não sei das noites sem sono, dos dias sem descanso, das rebeldias da adolescência, das idas ao médico e da mágoa das palavras ditas sem pensar.

De nada disso sei porque não sou mãe. Mas sou filha e sei da dimensão de tudo que você fez e faz por mim, mãe, e frente a tudo só posso abraçá-la com carinho e dizer, sem hesitar, o quanto a amo e sou grata. Você é o meu porto seguro e quando estou com você qualquer lugar se torna a nossa casa.

Contudo estou longe, e por isso hoje a abraço com estas palavras, para com elas aproximar corações.

Anúncios

Enquanto sinto sua falta

maio 4, 2014

Tem dias em que acordo abraçada ao travesseiro sentindo a sua falta. Abro a geladeira e não lembro mais o que queria, porque sinto sua falta. Acabo desistindo de comer pois o vazio que sinto não é fome, é saudade.

Ligo o rádio para que ele disfarce o silêncio que a alegria da sua voz deixou quando foi embora. Termino por desligá-lo visto que as músicas soam tristes e sem sentido quando você não está por perto, cantarolando.

Fecho a porta de casa, tranco-a bem, porque a porta aberta traz esperança, e esperança não ajuda enquanto continuo sentindo sua falta.

Já que não consigo parar de sentir sua falta, pego a saudade pela mão e saio para rua, levo-a ao teatro, ao parque e até companheira de trabalho ela virou. Tenho me comportado bem enquanto sinto sua falta.

Eu sei que vai passar, mas – sabe? – eu queria mesmo era deixar a porta aberta para ver você voltar para me ajudar a matar essa saudade porque a casa é pequena demais para nós duas.


Um fato da vida

abril 16, 2014

Só consegui captar a real dimensão de morar em uma cidade grande o dia em que fui ao cemitério para acompanhar um enterro. Foi no cemitério municipal, que é razoavelmente novo, e o primeiro impacto aconteceu quando entramos no cemitério de carro devido ao seu enorme tamanho.

 

Era um final de tarde, havia chovido e por isso tinha muito barro pelas alamedas. Andamos um pouco até a cova. O enterro foi emocionante, como quase sempre acontece quando um jovem de vinte e poucos anos morre em um acidente. A tarde caia rapidamente.

 

Enquanto voltamos para o carro avistei mais quatro ou cinco enterros simultâneos e uma imensidão de covas novas. Foi impactante.

 

Eu morava aqui há alguns anos e já havia caminhado no centro da cidade em dias de movimento, ficado presa em engarrafamentos por horas e frequentado a multidão dos grandes shows, entre tantas outras aventuras que as metropóles proporcionam. Contudo, nada se comparou ao que senti naquela tarde. Lá pude ver que na morte também somos muitos, anônimos.

 

Entrei em casa com o sapato cheio de barro nas mãos, a sala parcamente iluminada pelo por-do-sol, e o pensamento, que só hoje elaboro, de que a morte é só mais um episódio da vida – o mais comum deles – e não há nada especial nisso, a não ser, claro, que você esteja vivo.  


O autoconhecimento que vem com o fim

fevereiro 17, 2014

Acabou. Eu sabia que tinha acabado. Ou melhor: sabíamos. E o que mais deixava isso explícito era aquela cena absolutamente prosaica.

De repente aquele café, aquele cigarro e aquele silêncio eram apenas isso. E é insuportável respirar uma cena dessas como ela é. Quando há amor tudo é mágico. Depois, quando o amor arrefece, a mágica passa e vem a cumplicidade que é o prazer que se conquista com a partilha de todas as pequenas intimidades.

Um dia o amor e a cumplicidade acabam e nos resta apenas aquele gosto amargo de mágoa. De repente a pessoa que melhor conhecemos e que melhor nos conhece é a que mais tem potencial para nos magoar. E o trágico é que não é preciso fazer planos, elaborar complicadas estratégias para que a mágoa brote: basta elencar os nossos defeitos. E ninguém conhece tão bem os nossos defeitos quanto aquela criatura com a qual compartilhamos a vida com tanta devoção.

Todas as nossas cantadas baratas, nossos hábitos, nossos vícios, nossas dívidas, os traumas de infância e as brigas de família: nada escapa. Estamos nus e indefesos, frente a um inimigo que está armado apenas da palavra e do seu conhecimento de nós.

Em geral, o que resta do fim de um relacionamento é o autoconhecimento repentino de todos os nossos defeitos.

E talvez essa seja a mágica final do amor que acaba para recomeçar logo adiante, qual profetizou Paulo Mendes Campos: nos apaixonamos novamente pela vontade de encontramos alguém que redescubra as nossas qualidades.


Infâncias

fevereiro 11, 2014

Os dramas infantis são os de maior intensidade, não porque saibamos serem os primeiros, isso não passa pela cabeça de uma criança em tão pouca idade, mas porque os imaginamos únicos. Entretanto, eles passam, a gente sobrevive e vem outros e outros e outros. A vida se repete neste eterno ciclo de largar a mão da mãe para depois voltar pedindo colo. E então a gente descobre que eles passam, e isso é bom. E então a gente descobre que eles voltam, e isso é a vida.


Dias difíceis

janeiro 15, 2014

Marcio Pimenta - Soul Rock café

Dias em que erro todas as receitas de bolo e que a chuva não aplaca a angústia.
Dias em que ficar em casa é solitário e sair de casa um esforço grande demais para ser tentado.
Dias em que os livros não distraem e a música não alegra.
Dias em que andar na rua é um perigo e a casa, minúscula, mais parece um labirinto.
Dias de compromissos adiados e de sensações entorpecidas.
Dias de uma fome sem nome, insaciável, e que faz rejeitar o alimento favorito enquanto a boca procura a esmo outro sabor.
Dias de muito sono e já sem sonhos. Noites de insônia.
Dias sem brigas, sem tréguas, sem paz. Dias de contar corpos em manchetes de jornal de tantos crimes passionais.
Dias de ignorar o horóscopo de boas notícias e apostar no inferno astral.
Dias difíceis estes em que me dou conta de que esqueci de ir embora.

***

Foto: Márcio Pimenta


Que você não esqueça da beleza

janeiro 1, 2014

Desejo que você não esqueça da beleza. Não dessa beleza de capa de revista, não é dessa “beleza” que estou falando.

A beleza que eu desejo que você lembre e a beleza de estar vivo. A beleza de ter um corpo e ser dono dos seus sentidos.

A beleza de sempre ter alguma nova possibilidade esperando que você diga: sim. A beleza de se admirar com tudo isso.

Porque a gente esquece de como é bonito. Desejo que você tenha muitos pretextos para se lembrar.

E que em um dia qualquer, andando pela rua, você cantarole baixinho: “é a vida, é bonita e é bonita“. Para que outras pessoas possam ouvir e lembrar da beleza.


%d blogueiros gostam disto: