Twitter

março 21, 2015

Uns anos atrás, perdi meu cartão do banco. É uma situação delicada, sobretudo para quem mora sozinha e já não estava passando por seus melhores dias. Fui até uma Agência do banco para acertar isso, e o problema era um pouco mais complicado do que eu imaginava. Contudo, o atendente foi maravilhoso, me ajudou muito. Eu nunca fui tão bem atendida em um banco (e olha que frequento estes lugares desde os 7 anos de idade, quando comecei a fazer serviço de banco para a minha mãe).

Fui até o Twitter e fiz um elogio para o atendente, marcando o perfil do Banco. Ele foi parabenizado pela Agência e parece que ganhou até um bônus (um amigo meu que trabalhava no mesmo banco me contou depois). Uns dias mais tarde, fui até a agência para terminar de resolver o problema e ele ficou emocionado ao me ver, disse que, em anos trabalhando em um Banco, nunca tinha recebido um elogio.

As vezes eu vou até o Twitter elogiar muito.


Sagitário

janeiro 15, 2015

Todos os dias ela me perguntava se eu poderia ler o seu signo no jornal e, ao me ver empenhada procurando pelo horóscopo, falava o seu signo, Touro, com a ênfase que lhe é peculiar.

Emposto a voz e capricho na entonação para cumprir a importante missão.

Essa cena se repete há anos, na casa da minha avó, quando minha tia, deficiente visual, pede que leiamos o seu signo no jornal. É uma daquelas cenas eternas, sei que continua acontecendo mesmo quando não estou lá. Sei que aconteceu hoje e que acontecerá novamente amanhã. É uma certeza que garante que o mundo segue em ordem – pelo menos o meu mundo.

Mas desta vez algo inusitado aconteceu: ao invés de tentar adivinhar o futuro, o horóscopo continha palavras que incitavam a reflexão. Ao terminar de ler o signo de minha tia, eu ficava meditando sobre o que havia lido.

Tanto fiz, que acabei gostando de ler aquelas palavras, e passei até mesmo a admirar o estilo com que eram escritas. Ironia da vida, pois eu que acho – e continuo achando – signo uma bobagem enorme, comecei considerar muito engenhosa a forma como aquele escritor fazia a sua coluna. Lembrei de diversos autores, hoje reconhecidos pela sua qualidade, em no início da carreira escreviam horóscopos de forma anônima, ou escondidos sob um pseudônimo.

Ao retornar para casa percebo de que, apesar de ter lido todos os dias o horóscopo para a minha tia e ter me divertido com isso, em nenhum momento me interessei por ler o meu próprio – até porque, como vocês bem sabem, eu não tenho signo.


Identidade literária: Qual livro o define?

dezembro 5, 2014

Tem histórias que parecem que falam de nós e por nós. Alguns autores criam personagens ou situações que nos surpreendem por serem como a um espelho, por vezes nos apresentando a nós mesmos por um angulo ainda inédito, mas que, indubitavelmente, somos.

E não estou falando de livros favoritos, daqueles que nos fazem perder noites de sono, ou aqueles de leitura lenta que nos presenteiam com um imenso prazer. Não estou perguntado por este livro que você gosta e recomenda a todos. Pergunto pelo livro que você é, gostando ou não.

Eu mesma, se fosse falar de meus livros favoritos, talvez escolhesse algum do Jorge Luís Borges ou do Gabriel García Márquez. Mas para falar de mim não preciso nem de um livro inteiro: um pequeno conto foi suficiente para me representar.

Foi lendo um conto de Clarice Lispector, Felicidade Clandestina, que me reconheci. Foi uma epifania saber de mim por aquelas palavras que profundamente me tocaram e continuam a ecoar pela minha vida.

Ler também é uma intensa experiência de auto-conhecimento – por vezes mística, por vezes brutal, por vezes bela, porém sempre única na sua revelação.

E por isso eu pergunto, caro leitor, qual livro o define?


Canção para noites de luar

setembro 12, 2014

Em dias de Lua cheia, como hoje, é possível me encontrar caminhando pelas ruas cantarolando “Rua, espada nua, boia no céu imensa e amarela…”. Canto para a Lua como forma de gratidão pela alegria que ela me proporciona e para lembrar que Tom Jobim já compôs para ela.

Em dias como hoje tenho vontade de convidar todos a abrirem as janelas e saírem de casa por alguns minutos, apenas o suficiente, para admirarem o brilho intenso que vem do céu e derrama poesia sobre a noite.

Gostaria de gritar a sua beleza, mas o bom senso me impede. Então, sigo cantando baixinho, saboreando este segredo que é o luar brilhando solitário nestes dias apressados.


Um fato da vida

abril 16, 2014

Só consegui captar a real dimensão de morar em uma cidade grande o dia em que fui ao cemitério para acompanhar um enterro. Foi no cemitério municipal, que é razoavelmente novo, e o primeiro impacto aconteceu quando entramos no cemitério de carro devido ao seu enorme tamanho.

 

Era um final de tarde, havia chovido e por isso tinha muito barro pelas alamedas. Andamos um pouco até a cova. O enterro foi emocionante, como quase sempre acontece quando um jovem de vinte e poucos anos morre em um acidente. A tarde caia rapidamente.

 

Enquanto voltamos para o carro avistei mais quatro ou cinco enterros simultâneos e uma imensidão de covas novas. Foi impactante.

 

Eu morava aqui há alguns anos e já havia caminhado no centro da cidade em dias de movimento, ficado presa em engarrafamentos por horas e frequentado a multidão dos grandes shows, entre tantas outras aventuras que as metropóles proporcionam. Contudo, nada se comparou ao que senti naquela tarde. Lá pude ver que na morte também somos muitos, anônimos.

 

Entrei em casa com o sapato cheio de barro nas mãos, a sala parcamente iluminada pelo por-do-sol, e o pensamento, que só hoje elaboro, de que a morte é só mais um episódio da vida – o mais comum deles – e não há nada especial nisso, a não ser, claro, que você esteja vivo.  


Infâncias

fevereiro 11, 2014

Os dramas infantis são os de maior intensidade, não porque saibamos serem os primeiros, isso não passa pela cabeça de uma criança em tão pouca idade, mas porque os imaginamos únicos. Entretanto, eles passam, a gente sobrevive e vem outros e outros e outros. A vida se repete neste eterno ciclo de largar a mão da mãe para depois voltar pedindo colo. E então a gente descobre que eles passam, e isso é bom. E então a gente descobre que eles voltam, e isso é a vida.


Carta para o meu coração

novembro 23, 2013

Escrevo essa carta para mim. As vezes é necessário escrever para si mesmo para lembrar daquilo que quase esquecemos. Ou apenas para reavivar o prazer das palavras. 

Escrevo porque trago comigo a necessidade de comunicar e a necessidade de tentar descobrir a beleza das palavras. As vezes esquecemos que as palavras podem machucar, mas muito mais frequentemente esquecemos que as palavras podem ser belas. Esquecemos de fazer o elogio mais facilmente do que esquecemos dos xingamentos.

Falo para mim mesma assim, no plural, porque é mais fácil diluir a culpa quando colocamos a humanidade do nosso lado. Parece que o erro coletivo é mais fácil de admitir, afinal, “todo mundo erra”. Procuro esconder assim a culpa que é minha. É um belo recurso retórico, mas não adianta. Continuo a sentir culpa por todas as palavras rudes que disse e todas as indelicadezas que cometi. Elas não me deixam andar em paz. Tem dias que a culpa é tão grande que paralisa e tenho que fazer uma força sobre humana para continuar andando.
A culpa não é uma pedra em meu caminho, como diria Drummond, a culpa sou eu mesma. E não adianta desviar a rota, ela vai comigo. Isso é o mais dolorido de tudo: eu sei que não adianta fugir. O mundo não é o problema, o mundo é a minha desculpa, meu álibi, o meu problema sou eu. Quando entendi isso, tive que admitir que mudar de cidade novamente continuaria a não resolver os problemas.

Porque o problema, em parte é a própria vida. E não há solução, o jeito é encará-la.
Preciso aprender a ser mais gentil, a escolher soluções mais plausíveis e, sobretudo, a lidar melhor com esta culpa.

Esta carta eu escrevi para mim, porque precisava compartilhar esse sentimento com alguém. Mesmo que o único leitor possível seja o papel.


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