Mangarataia

dezembro 16, 2012

Eu sempre a via lavando roupa na beira do rio. Rio caudaloso, o maior do mundo – diz a enciclopédia – que levava a espuma de suas roupas para longe. As espumas escorriam para distâncias tão grandes quanto estas que percorre a minha imaginação quando penso nesta cena. Não sei de onde tirei tal imagem, mas ela sempre pareceu à minha imaginação tão real quanto a minha razão a sabe improvável.

Pensando bem, devem ter sido as suas pernas; pernas torneadas de quem lava roupa de cócoras a beira do rio. Provavelmente a cena, ainda comum no interior, nunca foi protagonizada por ela, garota da cidade ilhada. Contudo, com certeza foi repetida milhares de vezes por suas antepassadas. O esforço de suas infinitas avós resultou naquele par de pernas, penso, dando razão a teoria refutada de Lamarck.

Pernas que ela fazia questão de exibir usando saias e shorts curtos justificados pelo calor – escolhidos pela vaidade.

Aparecia sempre a tarde, mas nem em todas as tardes. A frequência deve ser determinada pelo calendário que algum astrólogo arbitrário inventou para seu uso, eu plagiava Cecília Meireles à noite, enquanto olhava a Lua e pensava se teria a sua companhia na tarde seguinte.

Sempre que vinha trazia umas balas de fabricação caseira que ela chamava de bombons e que eram envolvidas em papel manteiga sem nenhuma identificação. Só lembrava de perguntar do que eram depois que ela já tinha ido embora e tudo que restava da sua presença era aquele sabor indefinível.

Para mim, aquele era o sabor dela.

Nas tardes de mormaço – naquela terra todas as tardes eram de mormaço – nos perdíamos nas conversas até o cair da tarde quando ela anunciava que precisava ir embora e saia de supetão como quem é pego de surpresa pela lembrança de um eminente compromisso importante.

Chamava-se Aghatha – assim mesmo, com dois agás que nomes de grafia incomuns são comuns onde os rios se encontram. O nome caia perfeitamente com seus olhos felinos. Uma espécie de gueixa as avessas, uma gueixa da selva; seus olhos puxados são para mim a prova irrefutável do Estreito de Bering.

Olhos grávidos de guaraná e lendas da Amazônia.

Tinha os gestos lentos de uma bailarina minimalista que dança a música da floresta.

Ela não sabia, mas eu já havia adiado a minha partida algumas vezes por sua causa. Ao cabo de alguns meses embriagado pela sua presença ela desapareceu por mais de uma semana – era o astrólogo arbitrário que me concedeu uma doida falta.

Pensei que fosse explodir de saudade.

Finalmente fui tomado por um lampejo de sobriedade e decidi que minha inevitável partida se tornará também inadiável. Era ir embora ou enlouquecer.

Paguei as dívidas, resolvi as pendências, dispensei o ajudante e arrumei as malas.

Aguardava a carona até o porto – a longa viagem de navio era uma lenta despedida, o luto exigido pela minha sanidade – quando ela apareceu.

O céu carregado fazia o dia parecer noite e acentuava o mormaço. Ela chegou de vestido, viu as malas e as prateleiras vazias assim que passou pela porta. Não precisei dizer nada, Aghatha sabia. Por um instante fez pose de quem vai protagonizar uma discussão – mulher que nasce nesta terra é sempre uma guerreira no amor. Hesitou. Acabou fazendo um muxoxo triste com os lábios, deu meia volta e saiu.

Todas as minhas certezas viraram precipício neste momento. Eu continuava imóvel: qualquer movimento poderia ser fatal – a queda era inescapável.

Foi então que eu vi as balas e a curiosidade me salvou; corri até a janela e gritei-lhe perguntando de que sabor eram. Um relâmpago e um forte trovão ricochetearam antes da resposta.

Mangarataia, ela disse, sem se virar. Não adiantou esconder os olhos: a voz embargada a denunciava.

Choviam gotas espessas.

Tivesse se voltado teria visto que de meus olhos escorriam lágrimas de gengibre.


Gari

julho 10, 2011

Um sabor marcante era o que vinha a sua boca toda vez que a via. Ela era a japonesinha que toda tarde sentava no café da livraria do bairro e ficava lendo um livro compenetrada bebericando um chá.

Foi por acaso que a viu em uma tarde em que fora atrás de um livro qualquer e um cheiro familiar lhe chamou a atenção. Seguiu o aroma e seus olhos pousaram naquela figura fascinante. Parecia uma miragem. Era algo tão sublime que quando ela foi embora ele não conseguia mais descrevê-la.

No dia seguinte, meio que por instinto, voltou a livraria sem motivo. No fundo sabia que sua ida estava mais do que justificada. Sabia que era aquela visão que tanto o entorpecera que queria ver de novo. E viu.

Deste dia em diante, dava um jeito de passar na livraria por este horário para apreciar a japonesinha.
No começo, mesmerizado que estava pela sua aparência, não pensava em muita coisa. Nem em se aproximar. Olhar bastava, na verdade era o suficiente para atordoa-lo até o dia seguinte.

Só não a via aos domingos; tristes domingos em que a livraria não abria.

A japonesa não fazia ideia do que acontecia. Chegava, pegava um livro em sua bolsa, pedia um chá, e por alguns minutos era toda leitura e degustação.

Para ele era como uma apresentação com hora marcada. Era como se ela estivesse representando a milenar cerimonia do chá. Ela agia, ele admirava, sem aplausos, sem tietismos, cada um fazendo seu papel de ator e espectador. E a vida seguia, a dele influenciado pela a arte de existir dela.

Com o passar dos dias começou a observar outros detalhes, como as suas leituras, as suas roupas, a forma como posicionava a cadeira para melhor acomodar o livro.

Começou a pensar em aborda-la, mas tinha medo de quebrar o encanto. Respirava fundo, aspirando aquele sabor que tinha o cheiro dela, tentando tomar coragem para a abodagem.

Por estes dias algo passou a intrigá-lo. Que bebida era aquela que sua musa tomava? O nome parecia flutuar no ar brincando por entre as partileiras de livros, se escondendo dele que ficava com um gosto sem nome na boca. Ela não pedia. Havia um acordo implicito entre ela e a atendente. Sentava-se e logo vinha a xícara misteriosa.

Ele sentia aquele cheiro inebriente que já estava se tornando uma obssessão e ficava tentando decifrar do que seria.

Até que um dia, sentado na mesinha ao lado dela, disse o nome que tanto o artodoava: gari.

Era um chá de gari.
Naquele instante a moça deixou a leitura de lado e voltou-se para ele. O que aconteceu depois disso é outra história. Mas posso adiantar que aquele nome de quatro letras foi o código que desencadeou um amor em notas de gengibre.


Zingiber officinalis

março 15, 2009
* Este texto faz parte da série “Os muitos nomes do gengibre”.

Nesta época eu estava envolvido com um projeto que estudava algumas plantas aromáticas comuns no Brasil, e também estava ocupado com alguns artigos mais antigos que falavam sobre plantas medicinais e dois grupos de estudos sobre… sobre o quê mesmo? Não lembro, só sei que os adorava, não tanto pelos artigos discutidos, mas porque no fim sempre acabávamos discutindo futebol ou falando mal de algum professor. (Nota: fazer projeto para estudar variedades de grama para gramado de futebol.) Enfim, estava imerso na rotina de um estudante de pós-graduação em biologia.
Parece incrível, mas eu gostava do que fazia. Ainda gosto. Ficava, todos os dias, pesquisando depois que a maioria dos funcionários já havia se retirado. Digo funcionários, porque sempre ficava uma dúzia de pesquisadores por lá. Fazer pesquisa e ficar depois do expediente são quase sinônimos. Nestes momentos, ficávamos cada um em seu canto, concentrados em seus estudos, sem aquele burburinho do dia. Mal trocávamos palavras. Quando muito, nós nos esbarrávamos na cafeteira – não sei pra que estudar tantos chás se no final sempre tomamos a mesma coisa.
Naquele dia sai do Laboratório um pouco mais cedo que o habitual e fazia o percurso entre o ponto de ônibus e a minha casa distraído, como sempre, quando fui arrebatado por um cheiro. Parei onde estava, tentando distinguir que cheiro era aquele e de onde vinha. Fiquei assim por alguns minutos, até perceber que aquele cheiro forte, agridoce, vinha de uma casinha antiga, cercada por arbustos e com um portão baixo. Nunca tinha prestado atenção naquela casa, mas sabia que ela estava ali desde sempre.
Fui embora com aquele cheiro penetrante embalando meus pensamentos. Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar de que planta vinha aquele aroma tão marcante.
Por alguns dias a cena se repetiu.
Certa noite tomei coragem e resolvi bater à porta. Uma senhorinha, tão branquinha que parecia um algodãozinho com seus setenta e tantos anos,  abriu a porta com um sorriso meigo e um olhar inquisidor. Cumprimentei-a e expliquei que há dias passava pela frente da casa e sentia um cheiro que não conseguia distinguir, perguntei se ela podia me dizer qual era. A senhora me convidou a sentar na cadeira da varanda e apreciar um chá, de onde vinha o cheiro que eu estava sentindo.
O bom-senso já havia me abandonado por completo quando me vi sentando na varanda da senhora prestes a saborear aquele intrigante chá.
O gosto forte e adocicado tomou conta da minha língua, e o vapor penetrava pelo meu nariz quando de minha boca escapuliu a palavra tão procurada:  Zingiber officinalis.
A senhorinha me olhou intrigada, quando expliquei que aquele era o nome do chá. Ela, agora, me olhava um olhar complacente e, com paciência, me dizia que eu estava enganado, que aquele chá era de gengibre e que ela vinha o tomando há alguns dias para curar uma rouquidão de gripe.
Desta forma simples aquela senhora me disse algo que tomou dezenas de páginas da minha dissertação.
Enquanto terminava de apreciar o chá, conversamos sobre banalidades e o sabor do gengibre me fazia pensar no quando fazia falta esta vivência das ruas.


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