Náufragos

outubro 21, 2008

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

E meus últimos sonhos

morreram afogados no mesmo naufrágio

que matou a namorada chinesa

de Camões.

* Os três primeiros versos são do poema Tabacaria de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.


Microcontos V

julho 31, 2008

Precavido, pintou uma faixa de segurança no teto branco da sala.


Microcontos III

outubro 22, 2007

Microcontos campeiros

* Estalos na tapera, susto do tropeiro. Noturno, o gato passeia.

* Todo dia, na pausa do mate, Rubio conclui: saudade virou bebida.

* Pedi: “Negrinho do Pastoreio, encontres meu coração!”. Achei-te.

* De cuia na mão, João até sente o Minuano, louco, no centro do Rio.

* Uma milonga apenas e a prenda fugidia volta ao sabor do mate.

* Faca no chão, silêncio no pago: o luto é por Martín Fierro.


MicrocontosII

outubro 16, 2007

Marina Colasanti, escritora e jornalista brasileira, afirmou em uma recente entrevista que são as histórias que determinam qual é o formato que melhor lhes cabe.

Nesse sentido, o formato “microconto” tanto pode concordar quanto discordar com a afirmativa da autora.

Discordância: o formato do microconto não nasceu porque algumas histórias exigiram um novo formato, pelo contrario, um formato foi proposto e a história teria que se encaixar nele.

Concorda: o fato de o formato ter surgido primeiro não quer dizer que não existam histórias que não ficam muito bem nele, como podemos perceber em uma visita ao site A Casa das Mil Portas. Assim, o microconto pode ser encarado como uma nova possibilidade de expressão.

Alias, o próprio site, ao definir o microconto, concorda com esta visão:

“Um microconto é, ao menos na nossa definição, uma história em prosa contada em cinqüenta letras ou menos. Se parece pouco é porque é realmente pouco. Fazer um microconto é um desafio literário, uma tentativa extremamente econômica de contar ou sugerir uma história inteira.”

Particularmente, gosto de ser desafiada pela forma. Considero um ótimo exercício de criatividade, principalmente quando não se está acostumado a inventar histórias. Contudo não acredito que está forma deva ser adotada como única. Longe disso: se a história pedir, ou o desafio chamar, então que seja microconto. Se não for o caso, pode ser um minoconto, um conto, um poema, uma crônica, um romance…

Para encerrar, fui buscar em Jorge Luís Borges uma possível resposta a pergunta que Jonh lançou nos comentários: “Se ler é algo bom, para que escrever tão pouco?”

 

“Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário.” Jorge Luís Borges, Ficções.

 


Microcontos

setembro 11, 2007

Cada uma das próximas linhas é um microconto, segundo a definição de microconto do projeto A Casa das Mil Portas. Eles definem o microconto como sendo “uma história em prosa contada em cinqüenta letras ou menos“. Conheci-os por sugestão do Inagaki.

Microcontos

* Entre cetim branco e pinho vi a verdade: morrer é ficar só.

* Beijos fugidos e lágrimas frias: uma linha de amor perdido.

* Pobre e feliz. Sabia: alegria não tem dono. Tomou-a para si.

* Era um, tornou-se três: ele, ela e as cicatrizes.

* Era uma vez um fim de história.


Leituras

julho 17, 2007

Toda vez em que sou perguntada sobre qual o meu livro preferido, sempre respondo: o livro que estou lendo agora. Não porque cada livro que estou lendo seja sempre melhor que o anterior – infelizmente nem sempre isso acontece. Também não é porque não existam livros que marcaram mais que outros, ou, ainda, que não existam livros dos quais eu não tenha gostado. Contudo, no momento em que estou lendo um livro ele se torna o mais importante para mim. É com ele que estou interagindo, são as suas palavras que estão conduzindo os meus pensamentos no presente. Um livro fechado na estante é um objeto qualquer e nada mais. O livro só existe como tal na sua relação com o leitor.

“um livro de poesia na gaveta não adianta nada/ lugar de poesia na calçada” Sérgio Sampaio.

 

Então o Catatau perguntou-me quais seriam as minhas leituras mais presentes, mais próximas. Não foi fácil, e o resultado é mais um retrato momentâneo do que um lista definitiva. Vamos lá:

 

Ciência e Comportamento Humano, B. F. Skinner

Esse com certeza é um dos mais presentes na minha vida. O meu primeiro contato com seus trechos foi no primeiro ano de faculdade e de lá para cá sempre o estou consultando, relendo trechos para poder compreender melhor alguma parte da teoria da Ciência do Comportamento. É considerado o livro de referencia da área trazendo as linhas gerais desta ciência. Mais de 50 anos da sua publicação e esta continua sendo uma obra revolucionária – e que ainda rende muitas pesquisas na área, muita discussão, e muitos pontos abertos para pesquisa. Além da proximidade como leitura, esse livro é representativo de uma categoria das minas leituras: a literatura referente à psicologia, em especial, ao Behaviorismo Radical.

 

Quintana de Bolso, Mario Quintana

Esse livro é uma compilação de alguns dos mais conhecidos poemas do autor. É um livro, como o titulo diz, pequeno e fácil de carregar e acaba sendo, por isso mesmo, minha primeira opção quando preciso de um livro que caiba em qualquer lugar. E o melhor: lê-lo sempre me faz bem! Mario Quintana é irônico, divertido, belo, simples, genial… Recomendo a experiência de passear pela vida em sua companhia…

 

Carlos Drummond de Andrade

Era para ser um livro, mas no caso do Drummond fica sendo a obra. Já li vários livros dele, tenho alguns livros que estão na minha estante e que sempre estão sendo relidos e tenho alguns versos dele que levo sempre comigo, de cor, para que sempre que necessário eu tenha a sua visão de mundo por perto – visão por vezes um tanto mau-humorada mas sempre precisa…

 

Sensível Desafio, Célia Musilli

Um livro evidentemente feminino, e seu nome não podia ser melhor: este livro está sempre desafiando a sensibilidade do leitor. Poemas e cartas que me tocam e inspiram por esta vida. Alias, neste caso não apenas o livro, mas tudo que a Célia escreve tem sido um grande aprendizado para mim.

 

Água Viva, Clarice Lispector

É um livro lindo, curtinho, mas onde cada frase pede uma reflexão própria. Anotei muitas frases quando li, e até hoje me surpreendo ao relê-las, e tenho certeza que se lesse o livro novamente outras frases seriam anotadas. De resto ele fala por si só:

“Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo” p. 14, Clarice Lispector, Água Viva

 

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Quem estiver a fim de responder a pergunta avise nos comentários que eu acrescento o link aqui neste post.

Oba! Três queridos leitores já toparam o desafio e vão matar a nossa curiosidade a respeito das suas leituras mais próximas: Thahy, André e Robson. Valeu pessoal!

Mais alguém sentiu-se desafiado?

 

 


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