Sentidos

junho 6, 2014

Às vezes, eu escrevo para que a vida ganhe um significado, para que não escape aquela fagulha de sentido que nos atinge quando os sentimentos se exaltam.

Tenho fôlego de golfinho: sei que vou sobreviver aos período de submersão. É essa sensação, de quem se acostumou a mergulhar, que torna tais momentos mais suportáveis, mais lúcidos. Tanto que, depois que passa, é fácil esquecer do quanto precisei nadar para voltar a superfície pois o tempo todo estava de olhos abertos sendo protagonista e espectadora do turbilhão.

Então, quando chego ao fundo, eu escrevo. Escrevo para saber que mesmo lúcida eu senti tudo aquilo e que mesmo conhecendo o caminho passar por ele não é agradável. Escrevo para saber que foi importante, independente dos motivos. Escrevo porque quero lembrar, e lembro porque preciso que faça sentido.


Um texto para o dia das mães

maio 11, 2014

Não sei o que é ser mãe.

Não sei da sensação de ter um ser humano crescendo em seu ventre, de aguardar meses pelo seu nascimento, amamentar, dar banho, limpar, ensinar as primeiras palavras e amparar os primeiros passos.

Não sei da dor do parto, de por de castigo, de tomar decisões importantes sobre a vida de outra pessoa, de deixar pela primeira vez na porta da escola.

Não sei da dura decisão de adotar a criança quando esta chega pela primeira vez aos seus braços – todas as mãe adotam seus filhos ao decidirem criá-los – e renovar os votos todos os dias ao se levantar pela manhã buscando fazer o seu melhor incessantemente por anos, até o final das suas vidas.

Não sei das noites sem sono, dos dias sem descanso, das rebeldias da adolescência, das idas ao médico e da mágoa das palavras ditas sem pensar.

De nada disso sei porque não sou mãe. Mas sou filha e sei da dimensão de tudo que você fez e faz por mim, mãe, e frente a tudo só posso abraçá-la com carinho e dizer, sem hesitar, o quanto a amo e sou grata. Você é o meu porto seguro e quando estou com você qualquer lugar se torna a nossa casa.

Contudo estou longe, e por isso hoje a abraço com estas palavras, para com elas aproximar corações.


Enquanto sinto sua falta

maio 4, 2014

Tem dias em que acordo abraçada ao travesseiro sentindo a sua falta. Abro a geladeira e não lembro mais o que queria, porque sinto sua falta. Acabo desistindo de comer pois o vazio que sinto não é fome, é saudade.

Ligo o rádio para que ele disfarce o silêncio que a alegria da sua voz deixou quando foi embora. Termino por desligá-lo visto que as músicas soam tristes e sem sentido quando você não está por perto, cantarolando.

Fecho a porta de casa, tranco-a bem, porque a porta aberta traz esperança, e esperança não ajuda enquanto continuo sentindo sua falta.

Já que não consigo parar de sentir sua falta, pego a saudade pela mão e saio para rua, levo-a ao teatro, ao parque e até companheira de trabalho ela virou. Tenho me comportado bem enquanto sinto sua falta.

Eu sei que vai passar, mas – sabe? – eu queria mesmo era deixar a porta aberta para ver você voltar para me ajudar a matar essa saudade porque a casa é pequena demais para nós duas.


O autoconhecimento que vem com o fim

fevereiro 17, 2014

Acabou. Eu sabia que tinha acabado. Ou melhor: sabíamos. E o que mais deixava isso explícito era aquela cena absolutamente prosaica.

De repente aquele café, aquele cigarro e aquele silêncio eram apenas isso. E é insuportável respirar uma cena dessas como ela é. Quando há amor tudo é mágico. Depois, quando o amor arrefece, a mágica passa e vem a cumplicidade que é o prazer que se conquista com a partilha de todas as pequenas intimidades.

Um dia o amor e a cumplicidade acabam e nos resta apenas aquele gosto amargo de mágoa. De repente a pessoa que melhor conhecemos e que melhor nos conhece é a que mais tem potencial para nos magoar. E o trágico é que não é preciso fazer planos, elaborar complicadas estratégias para que a mágoa brote: basta elencar os nossos defeitos. E ninguém conhece tão bem os nossos defeitos quanto aquela criatura com a qual compartilhamos a vida com tanta devoção.

Todas as nossas cantadas baratas, nossos hábitos, nossos vícios, nossas dívidas, os traumas de infância e as brigas de família: nada escapa. Estamos nus e indefesos, frente a um inimigo que está armado apenas da palavra e do seu conhecimento de nós.

Em geral, o que resta do fim de um relacionamento é o autoconhecimento repentino de todos os nossos defeitos.

E talvez essa seja a mágica final do amor que acaba para recomeçar logo adiante, qual profetizou Paulo Mendes Campos: nos apaixonamos novamente pela vontade de encontramos alguém que redescubra as nossas qualidades.


Dias difíceis

janeiro 15, 2014

Marcio Pimenta - Soul Rock café

Dias em que erro todas as receitas de bolo e que a chuva não aplaca a angústia.
Dias em que ficar em casa é solitário e sair de casa um esforço grande demais para ser tentado.
Dias em que os livros não distraem e a música não alegra.
Dias em que andar na rua é um perigo e a casa, minúscula, mais parece um labirinto.
Dias de compromissos adiados e de sensações entorpecidas.
Dias de uma fome sem nome, insaciável, e que faz rejeitar o alimento favorito enquanto a boca procura a esmo outro sabor.
Dias de muito sono e já sem sonhos. Noites de insônia.
Dias sem brigas, sem tréguas, sem paz. Dias de contar corpos em manchetes de jornal de tantos crimes passionais.
Dias de ignorar o horóscopo de boas notícias e apostar no inferno astral.
Dias difíceis estes em que me dou conta de que esqueci de ir embora.

***

Foto: Márcio Pimenta


Que você não esqueça da beleza

janeiro 1, 2014

Desejo que você não esqueça da beleza. Não dessa beleza de capa de revista, não é dessa “beleza” que estou falando.

A beleza que eu desejo que você lembre e a beleza de estar vivo. A beleza de ter um corpo e ser dono dos seus sentidos.

A beleza de sempre ter alguma nova possibilidade esperando que você diga: sim. A beleza de se admirar com tudo isso.

Porque a gente esquece de como é bonito. Desejo que você tenha muitos pretextos para se lembrar.

E que em um dia qualquer, andando pela rua, você cantarole baixinho: “é a vida, é bonita e é bonita“. Para que outras pessoas possam ouvir e lembrar da beleza.


Metamorfose Pensante: 10 anos e alguns pensamentos

dezembro 3, 2013

Metamorfose Pensante 10 anos

Este blog chega aos 10 anos e sua importância para mim vai muito além do que a data sugere. Em 2003 fiz este blog por incentivo de um outro blogueiro, o Anônimo Incógnito, com a frase “por que você não faz um blog? Uma psicóloga deve ter muito para contar.”

Bem, na verdade eu ainda estava no terceiro ano de faculdade e estudava fortemente psicologia social, sobretudo o conceito de identidade descrito por Ciampa. Foram das suas falas sobre mesmice e mesmidade que acabei derivando o nome Metamorfose Pensante. O primeiro post do blog era o meu primeiro poema que foi escrito alguns dias antes e também é fortemente marcado por estes conceitos.

Naqueles dias, blog era algo muito diferente. Sinceramente, não lembro como fazia a divulgação dos textos, mas tinha muitos comentários. Um dos maiores baratos era sair clicando nos sites de quem havia comentado algo, ou na lista de blogs recomendados por outros blogs e ir assim descobrindo um mundo inteiro de palavras e amigos.

Sim, os blogs eram formas de fazer amizades. Era um modo muito diferente de se expor. Era possível falar de sentimentos e pensamentos e encontrar outras pessoas capazes de o entender, construindo relações a partir desse entendimento. Normalmente na vida as relações são invertidas: primeiro conhecemos a pessoa por alguma coincidência e depois, talvez, falamos do que importa.

Sobretudo, foi o blog que me ensinou a escrever, mais especificamente seus comentários. Por favor, continuem me ensinando, ainda tenho muito o que aprender.

Com o passar dos anos muitas coisas foram sendo agregadas. Além desse, tive e tenho outros blogs.

Os maiores ganhos foram absolutamente pessoais. A partir do momento em que escrevemos a forma como olhamos o mundo muda absurdamente. Os acontecimentos e os não acontecimentos passam a ser matéria para a escrita e é como se tivéssemos ligado um narrador na nossa cabeça. Você não é mais a pessoa que apenas responde as ideias dos outros, você passa a criar.

A sensação de transformar uma idéia em uma narrativa é maravilhosa. Escrever é um ato de prazer, mesmo sendo um sofrimento. Vai entender.

É por isso tudo e muito mais que agradeço a você que passa por este blog e me dá a alegria da sua leitura. Por isso digo: enquanto vocês estiverem por ai e eu por aqui, este blog continua.

Obrigada.


Desterrados

novembro 1, 2013

Marcio Pimenta - Chile Outdoor Aventure

Quando mudamos para um lugar diferente encaramos a realidade de que nunca seremos totalmente daquele lugar. Seja pelo sotaque, pelas preferências, pelos sonhos… tudo nos denuncia. Contudo, o que mais nos denuncia é justamente aquilo que talvez nem seja percebido pelos outros: a insistente nostalgia que carregamos conosco para sempre.

Pode ser que a gente aprenda os modos e costumes do local e até mesmo se esqueça de que veio de longe. Entretanto, uma hora tropeçamos, traídos por nós mesmos, e lembramos que não nos encaixamos naquele mundo. Que por mais que mimetizemos perfeitamente uma peça daquele quebra-cabeça, ele já estava completo antes de chegarmos.
Todavia, o pior ainda está por vir. Se passamos tempo suficiente fora, ao voltarmos para a nossa terra vamos descobrir que lá também já não conseguimos mais simplesmente compor a paisagem. Pode ser por um detalhe sem grande relevância e novamente nos sentimos como um estrangeiro. Sentimos que fomos traídos pela nossa terra por não mais nos reconhecemos nela, esquecidos de que fomos nós que fomos embora.
É um sentimento dolorido este o do não pertencimento, da incompletude.
Invejo aqueles que sempre foram de um mesmo lugar e se confundem com este. Eles tem a alegria de simplesmente serem, sem maiores dilemas ou escolhas.

Mas escolho os que arriscaram, os que foram embora por mais medo que sentiram. Escolho os torturados pela saudade, pois seus labirintos me atraem e seu olhar me compreende.

Ps.: A foto que ilustra este post é do fotógrafo Marcio Pimenta.


Fica comigo?

outubro 14, 2013

“Fica comigo?”, ele perguntou, por um instante completamente indefeso.

Apenas duas palavras sem nenhuma elaboração, mas que, naquele momento, se tornaram a coisa mais intensa que poderia ser dita. Duas palavras, uma pergunta, e entrega-se a outra pessoa seus desejos e suas carências. Ninguém faz esta pergunta sem ficar vulnerável, mesmo que apenas por alguns segundos.
Não há como escapar. Uma pergunta simples que exige uma resposta clara. Por um pequeno lapso no tempo perde-se o chão. Mesmo quando esperada, quando a resposta é um límpido sim, é inegável a falta de fôlego – uma pergunta que tem o surpreendente efeito de tornar o ar rarefeito.
E quando a pergunta é uma surpresa? Ou quando a resposta é um não? Ainda assim, algo terá de ser dito, não há como retroceder.

Ouvi com atenção e pensei com cuidado no que diria. Sabia que a resposta ecoaria para sempre em nossas vidas.


Soldadinho de Chumbo

agosto 15, 2013

É estranho quando vou apanhar algum objeto no chão e preciso fazer uso da flexibilidade para alcança-lo. Nestes momentos lembro que o corpo continua preparado para a dança, mesmo que os ouvidos não mais ouçam música.


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