Então é possível escrever desse jeito?

setembro 23, 2017
Lembro da sensação de quando li Cem anos de Solidão do Gabriel García Márquez. A forma como o livro foi escrito provocou a constatação de que era possível de escrever daquela forma. Isso foi em 2004, eu já tinha o blog e a escrita já era uma questão para mim.
Li muito Garcia Márquez nos anos seguintes. Lendo Cheiro de Goiaba, que é uma espécie de biografia em forma de entrevista, me deparei com uma fala sobre o seu percurso como escritor. Ele contava do dia em que leu a Metamorfose do Kafka pela primeira vez, e que logo nas frases iniciais pensou que o livro o tocou como uma revelação de que era possível escrever livros daquele jeito, metafórico e fantasioso que lembrava a maneira com que a sua avó contava histórias. Fiquei impressionada com aquela confissão, afinal o autor que havia me tocado tanto, havia passado por uma experiência parecida quando leu outro autor.
Hoje eu estava assistindo a uma entrevista da Angélica de Freitas, autora do ótimo livro de poesias Um útero é do tamanho de um punho. Nesse vídeo ela conta que aos quinze anos leu o Aos teus pés da Ana Cristina César e naquele momento também pensou: então, é possível escrever desse jeito. Foi muito legal perceber que não foi uma experiência forte apenas para mim, mas que também é compartilhada por tantos autores que admiro.
Conto isso pela alegria de ter passado por esse insight poderoso e libertador na vida de quem escreve.
Conto também por novamente constatar que o impacto da obra depende muito de quem está lendo e de quando se lê. Li a Metamorfose no mesmo verão em que li Cem Anos de Solidão, entretanto apenas o último provocou uma reflexão sobre a escrita. Anos mais tarde também leria A Teus Pés e o insight não se deu com ele.
Outros autores em outros momentos, me fizeram pensar nas possibilidades do escrever.
Depois que comecei a me expressar com palavras, ler livros também se tornou uma forma de descobrir como transcender limites.
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: