Um fato da vida

Só consegui captar a real dimensão de morar em uma cidade grande o dia em que fui ao cemitério para acompanhar um enterro. Foi no cemitério municipal, que é razoavelmente novo, e o primeiro impacto aconteceu quando entramos no cemitério de carro devido ao seu enorme tamanho.

 

Era um final de tarde, havia chovido e por isso tinha muito barro pelas alamedas. Andamos um pouco até a cova. O enterro foi emocionante, como quase sempre acontece quando um jovem de vinte e poucos anos morre em um acidente. A tarde caia rapidamente.

 

Enquanto voltamos para o carro avistei mais quatro ou cinco enterros simultâneos e uma imensidão de covas novas. Foi impactante.

 

Eu morava aqui há alguns anos e já havia caminhado no centro da cidade em dias de movimento, ficado presa em engarrafamentos por horas e frequentado a multidão dos grandes shows, entre tantas outras aventuras que as metropóles proporcionam. Contudo, nada se comparou ao que senti naquela tarde. Lá pude ver que na morte também somos muitos, anônimos.

 

Entrei em casa com o sapato cheio de barro nas mãos, a sala parcamente iluminada pelo por-do-sol, e o pensamento, que só hoje elaboro, de que a morte é só mais um episódio da vida – o mais comum deles – e não há nada especial nisso, a não ser, claro, que você esteja vivo.  

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