O autoconhecimento que vem com o fim

Acabou. Eu sabia que tinha acabado. Ou melhor: sabíamos. E o que mais deixava isso explícito era aquela cena absolutamente prosaica.

De repente aquele café, aquele cigarro e aquele silêncio eram apenas isso. E é insuportável respirar uma cena dessas como ela é. Quando há amor tudo é mágico. Depois, quando o amor arrefece, a mágica passa e vem a cumplicidade que é o prazer que se conquista com a partilha de todas as pequenas intimidades.

Um dia o amor e a cumplicidade acabam e nos resta apenas aquele gosto amargo de mágoa. De repente a pessoa que melhor conhecemos e que melhor nos conhece é a que mais tem potencial para nos magoar. E o trágico é que não é preciso fazer planos, elaborar complicadas estratégias para que a mágoa brote: basta elencar os nossos defeitos. E ninguém conhece tão bem os nossos defeitos quanto aquela criatura com a qual compartilhamos a vida com tanta devoção.

Todas as nossas cantadas baratas, nossos hábitos, nossos vícios, nossas dívidas, os traumas de infância e as brigas de família: nada escapa. Estamos nus e indefesos, frente a um inimigo que está armado apenas da palavra e do seu conhecimento de nós.

Em geral, o que resta do fim de um relacionamento é o autoconhecimento repentino de todos os nossos defeitos.

E talvez essa seja a mágica final do amor que acaba para recomeçar logo adiante, qual profetizou Paulo Mendes Campos: nos apaixonamos novamente pela vontade de encontramos alguém que redescubra as nossas qualidades.

10 respostas para O autoconhecimento que vem com o fim

  1. Andre Marmota disse:

    É isso. Piora quando a gente simplesmente não sabia.

  2. Inagaki disse:

    Cito aqui um trecho de “Adolpho”, livro de Benjamin Constant que é uma das minhas leituras de cabeceira: “O amor supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica. Todas as outras afeições necessitam de um passado: o amor cria, como por encanto, um passado de que nos cerca. Dá-nos, por assim dizer, a consciência de havermos vivido anos a fio com alguém que há pouco era quase um estranho. O amor é só um ponto luminoso, e, contudo, parece apoderar-se do tempo. Há poucos dias não existia, logo mais, deixará de existir: mas enquanto existe esparge sua claridade sobre o tempo precedente e sobre o tempo que o sucederá.”

    • Marcela Ortolan disse:

      Que citação maravilhosa, meu amigo! Nunca havia ouvido falar desse livro, vou procurá-lo. Um grande abraço e obrigada pelo excelente comentário

  3. Yuri Bandeira disse:

    Ah, a dor da perda que entorpece todo corpo até a alma! Que dor é essa que transforma os mais deliciosos instantes em meras recordações de um tempo que não volta mais? Por bem ou mal, tudo tem um ponto final.

    Yuri Bandeira

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