O autoconhecimento que vem com o fim

fevereiro 17, 2014

Acabou. Eu sabia que tinha acabado. Ou melhor: sabíamos. E o que mais deixava isso explícito era aquela cena absolutamente prosaica.

De repente aquele café, aquele cigarro e aquele silêncio eram apenas isso. E é insuportável respirar uma cena dessas como ela é. Quando há amor tudo é mágico. Depois, quando o amor arrefece, a mágica passa e vem a cumplicidade que é o prazer que se conquista com a partilha de todas as pequenas intimidades.

Um dia o amor e a cumplicidade acabam e nos resta apenas aquele gosto amargo de mágoa. De repente a pessoa que melhor conhecemos e que melhor nos conhece é a que mais tem potencial para nos magoar. E o trágico é que não é preciso fazer planos, elaborar complicadas estratégias para que a mágoa brote: basta elencar os nossos defeitos. E ninguém conhece tão bem os nossos defeitos quanto aquela criatura com a qual compartilhamos a vida com tanta devoção.

Todas as nossas cantadas baratas, nossos hábitos, nossos vícios, nossas dívidas, os traumas de infância e as brigas de família: nada escapa. Estamos nus e indefesos, frente a um inimigo que está armado apenas da palavra e do seu conhecimento de nós.

Em geral, o que resta do fim de um relacionamento é o autoconhecimento repentino de todos os nossos defeitos.

E talvez essa seja a mágica final do amor que acaba para recomeçar logo adiante, qual profetizou Paulo Mendes Campos: nos apaixonamos novamente pela vontade de encontramos alguém que redescubra as nossas qualidades.

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Infâncias

fevereiro 11, 2014

Os dramas infantis são os de maior intensidade, não porque saibamos serem os primeiros, isso não passa pela cabeça de uma criança em tão pouca idade, mas porque os imaginamos únicos. Entretanto, eles passam, a gente sobrevive e vem outros e outros e outros. A vida se repete neste eterno ciclo de largar a mão da mãe para depois voltar pedindo colo. E então a gente descobre que eles passam, e isso é bom. E então a gente descobre que eles voltam, e isso é a vida.


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