Desterrados

Marcio Pimenta - Chile Outdoor Aventure

Quando mudamos para um lugar diferente encaramos a realidade de que nunca seremos totalmente daquele lugar. Seja pelo sotaque, pelas preferências, pelos sonhos… tudo nos denuncia. Contudo, o que mais nos denuncia é justamente aquilo que talvez nem seja percebido pelos outros: a insistente nostalgia que carregamos conosco para sempre.

Pode ser que a gente aprenda os modos e costumes do local e até mesmo se esqueça de que veio de longe. Entretanto, uma hora tropeçamos, traídos por nós mesmos, e lembramos que não nos encaixamos naquele mundo. Que por mais que mimetizemos perfeitamente uma peça daquele quebra-cabeça, ele já estava completo antes de chegarmos.
Todavia, o pior ainda está por vir. Se passamos tempo suficiente fora, ao voltarmos para a nossa terra vamos descobrir que lá também já não conseguimos mais simplesmente compor a paisagem. Pode ser por um detalhe sem grande relevância e novamente nos sentimos como um estrangeiro. Sentimos que fomos traídos pela nossa terra por não mais nos reconhecemos nela, esquecidos de que fomos nós que fomos embora.
É um sentimento dolorido este o do não pertencimento, da incompletude.
Invejo aqueles que sempre foram de um mesmo lugar e se confundem com este. Eles tem a alegria de simplesmente serem, sem maiores dilemas ou escolhas.

Mas escolho os que arriscaram, os que foram embora por mais medo que sentiram. Escolho os torturados pela saudade, pois seus labirintos me atraem e seu olhar me compreende.

Ps.: A foto que ilustra este post é do fotógrafo Marcio Pimenta.

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19 Responses to Desterrados

  1. Rodrigo disse:

    Lindo texto, Marcela! Quando li, fiquei pensando que também acontece, as vezes, de ficarmos ‘desterrados’ em relação às pessoas que conhecemos. Lembrei de uma citação: “Não sei: é silêncio apenas. Somente a memória fala: porque é certo que as pessoas estão sempre crescendo e se modificando, mas estando próximas uma vai adequando o seu crescimento e a sua modificação ao crescimento e a modificação da outra; mas estando distantes, uma cresce e se modifica num sentido e outra noutro completamente diferente, distraídas que ficam da necessidade de continuarem as mesmas uma para a outra.” (Caio F. in: Inventário do ir-remediável. Ed. Sulinas, p. 107)

    • Marcela Ortolan disse:

      Ótima reflexão, Rodrigo. E como isso é comum, né? Em relacionamentos, amizades, famílias… Quando um cresce mais que outro, ou cresce em um sentido diferente as vezes muitas vezes deixam de se reconhecer. E isso não chega a ser ruim. Aprender a lidar com isso pode ser um sinal de maturidade, tanto no sentido de aceitar o outro para permanecer no relacionamento ou então deixa-lo ir se assim for melhor. Contudo, maduros ou não, isso dói sim. Sobretudo quando somos surpreendidos pelo outro tão diferente que não vimos crescer até se transformar em um estranho. A cotação do Caio é linda! Obrigada por trazê-la! E tiro o chapeu por ter colocado até a referência! Um abraço o obrigada pelo enriquecedor comentário 😉

  2. Carla disse:

    Moça borboleta, você é linda!
    Seus textos, consequentemente, também.

  3. Pablo disse:

    É isso mesmo. É tal qual. Não sou daqui, não são mais de lá… nunca tinha percebido o quanto isso é verdadeiro. Tenho história em esquinas de muitas cidades, e todas me pertencem por isso, mas não pertenço a nenhuma. É uma nostalgia não correspondida. Por fim, descobrir que o lugar de onde venho já não mais me reconhece foi algo (um golpe) ao que não dei a importância devida. Era mais fácil ser estrangeiro no estrangeiro… a desculpa era mais óbvia. Contudo, não me arrependo dessa vida de cigano. Obrigado.

  4. Lembro que um amigo (já daqui de Belém), me disse uma vez: “Cara, você não vai voltar pra casa nem tão cedo”, e é verdade. Quando a gente não se prepara pra esse tipo de sensação de incerteza, as coisas se tornam mais difíceis. De toda forma, há coisas que são necessárias pro nosso próprio desenvolvimento. O efeito disso (infelizmente) é essa sensação de eterna saudade. Quando deixamos nossa terra, sentimos saudades dela. Quando voltamos à nossa terra, sentimos saudades do lugar de onde estávamos. Partimos com muita saudade, e cada lugar que vamos, levamos cada vez mais saudade.

    Ótimo texto, Marcela! Parabéns! =)

  5. Maria Wang disse:

    E como explicar para aqueles de nossa origens que é impossível ‘ser o mesmo a mesma’ depois das andanças pelo mundo? Sei bem o que é isso. Sou do interior do Ceará e moro em São Paulo há 24 anos. Passei a maior parte do meu tempo em Sampa, Mas tanto em Sampa quanto em Ubajara sou “uma de fora que também está dentro”. Confesso que me sinto mais dentro em Sampa que em Ubajara, afinal passei aqui a maior parte da minha vida. E o sotaque? Continua a ser principalmente cearense, não o suficiente para não ser criticada pelos conterrâneos. Ainda assim não posso imaginar a vida sem riscos como esses. E escrever, torná-los públicos, como você fez, é um jeito de descobrir rapidamente que não estamos sozinhos no barco.

    • Marcela Ortolan disse:

      É Maria, o sotaque é algo que nos denuncia muito. Nunca totalmente fluentes no sotaque novo, mas já não mais perfeitos no sotaque materno. Onde quer que se vá, alguém sempre vai perguntar de onde somos. Parece que no fim, mais do que pela imagem, é pela língua que se dá a nossa maior identidade.
      Gosto de pensar, Maria, que o nosso problema não é a falta de raízes. Essas nos temos de sobra, e nos doem sempre que chove. O nosso problema é o excesso de asas que nos permitem voar e ver mais caminhos do que a média.
      Muito, muito obrigada pelo delicioso depoimento 😉

  6. Paixão disse:

    Só posso dizer uma coisa diante deste escrito: obrigado!

  7. aÍ estamos nós! Obrigado Marcela por evidenciar nas letras o que está recôndito em silêncio de décadas.

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