Do amor, destemido amor, e outros medos.

O amor nos deixa destemidos – mas apenas em alguns aspectos.

Em tudo aquilo que concerne a preservar o objeto amado somos só coragem. Lutamos para tê-lo por perto, para salvá-lo das situações de perigo. Como um soldado que faz seu juramento à bandeira “defenderei com o sacrifício da própria vida”, no amor merecemos medalhas de honra ao mérito pois preferimos a nossa própria morte a ficar sem o nosso amor ou vê-lo sofrer.

Amar é desapegar-se da própria vida para que o outro sobreviva. O mais valente herói sai da sua forma.

Mas existe um medo, um grande medo, que move toda essa intrépida cena amorosa: é o medo de perder o nosso amor.

É por esse medo que medimos as batidas de nosso coração. É por ele que somos gigantes, bravos desbravadores de terras inóspitas, e é por ele que choramos encolhidos qual fetos: basta sentir que o nosso amor escapa brevemente que o gigante desaparece e viramos coelhinhos assustados e frágeis.

Amar é ser vulnerável.
Amor:
Nunca tão destemidos
Nada amedronta tanto.

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3 Responses to Do amor, destemido amor, e outros medos.

  1. Ler isso me fez pensar na definição que tem sido dada a comportamento altruísta. Dizem que seria o comportamento que produz reforçadores não ao agente, mas a terceiros. Não creio que seja uma boa definição. Todo comportamento altruísta produz consequências também para o agente. Por exemplo, fêmeas de muitas espécies costumam se expor a riscos pessoais em ocasiões em que isso possa salvar sua prole. Seria este um exemplo de comportamento altruísta? Creio que não, pois, se levarmos em conta o que essa mãe sente diante de contextos em que seus filhos estão em risco, é muito compreensível que ela venha a se expor a situações de risco pessoal, caso isso possa cessar esse sentir tão desagradável.

    O que chamamos de compaixão, que poderia ser definido como sofrer diante da dor do outro, é um comportamento respondente que possivelmente tem forte determinação filogenética. Características fisiológicas responsáveis pelo nosso atual sofrer diante da dor dos outros tiveram valor de sobrevivência na história de muitas das espécies, sobretudo de mamíferos, nesse planeta em que vivemos.

    Creio que, ao descrevermos as inúmeras variáveis responsáveis pelo responder caracterizado como altruísta, certamente encontraremos variáveis intimamente relacionadas ao bem-estar do agente que, justamente devido a esse responder, é considerado altruísta.

    Lembro do psicanalista e escritor Rubem Alves, que disse:

    “Ao apaixonado, a decifração desta língua está proibida, pois, se ele a entender, o amor se irá.”

    Mas tenho convicção de que descrever não basta para que cesse o que sentimos. Podemos descrever e, mesmo assim, continuamos a sentir. O amor é o que sentimos diante de alguém. E esse sentir está intimamente relacionado ao que fazemos diante deste alguém.

    • Marcela Ortolan disse:

      Vinícius, obrigada pelo seu comentário. Sabe, tenho sentido falta de comentários lá no blog pois praticamente aprendi a escrever lendo-os. E o seu comentário foi algo fantástico por que captou algo no que pensei enquanto escrevia: no amor materno e seus sacrifícios – sim, pensei também nos relacionamentos amorosos em outros âmbitos.

      Concordo contigo sobre o altruísmo, parece que temos reforços e inclusive uma seleção filogenética para isso: afinal, mães que não se sacrificaram em nada pela sua prole não tiveram seus genes passados para frente. Por isso existe para a etologia mais de um tipo de altruísmo e aquele propagado e conhecido como “altruísmo puro” que é esse que os humanos gostam de divulgar, os etologistas questionam a sua existência. Os outros tipos estão sempre ligados a sobrevivência da espécie.

      Agradeço enormemente ao seu comentário, fiquei muito feliz com ele.

  2. Coisa boa, Marcela!

    Algo que me faz pensar nessa definição de altruísmo como relacionado ao comportamento respondente é o comportamento de algumas mães de crianças com deficiência e repertório comunicativo precário. Às vezes essas mães mantêm o responder autolesivo dos filhos, ao fazer imediatamente algo que o faça cessar. Mesmo se você descreve junto com ela como as consequências imediatas que vem fornecendo vêm mantendo o responder do filho, ela continua tendo um “impulso” no sentido de fazer algo que imediatamente cesse o responder autolesivo.

    Penso que ser altruísta, nesses casos, deve envolver expor-se a situações altamente ansiogênicas diante do responder autolesivo do filho, e, ainda assim, não consequenciá-lo de modo que traga alívio imediato. Para que isso aconteça, você tem que levar essa mãe a compreender que, levando em conta as consequências não imediatas, valerá a pena para ela expor-se a esses contextos ansiogênicos, pois isso contribuirá para que o filho passe a responder de outras maneiras, que não a farão sofrer. Ou seja, sempre haverá consequências que afetam o agente, por mais que, à primeira vista, pareça que seu comportamento produz consequências apenas a terceiros.

    A chamada compaixão (junto àquilo tudo que as pessoas costumam fazer pelos outros ao senti-la) nem sempre traz consequências que compensam de modo consistente para quem a desperta.

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