Do amor, destemido amor, e outros medos.

dezembro 24, 2012

O amor nos deixa destemidos – mas apenas em alguns aspectos.

Em tudo aquilo que concerne a preservar o objeto amado somos só coragem. Lutamos para tê-lo por perto, para salvá-lo das situações de perigo. Como um soldado que faz seu juramento à bandeira “defenderei com o sacrifício da própria vida”, no amor merecemos medalhas de honra ao mérito pois preferimos a nossa própria morte a ficar sem o nosso amor ou vê-lo sofrer.

Amar é desapegar-se da própria vida para que o outro sobreviva. O mais valente herói sai da sua forma.

Mas existe um medo, um grande medo, que move toda essa intrépida cena amorosa: é o medo de perder o nosso amor.

É por esse medo que medimos as batidas de nosso coração. É por ele que somos gigantes, bravos desbravadores de terras inóspitas, e é por ele que choramos encolhidos qual fetos: basta sentir que o nosso amor escapa brevemente que o gigante desaparece e viramos coelhinhos assustados e frágeis.

Amar é ser vulnerável.
Amor:
Nunca tão destemidos
Nada amedronta tanto.


Mangarataia

dezembro 16, 2012

Eu sempre a via lavando roupa na beira do rio. Rio caudaloso, o maior do mundo – diz a enciclopédia – que levava a espuma de suas roupas para longe. As espumas escorriam para distâncias tão grandes quanto estas que percorre a minha imaginação quando penso nesta cena. Não sei de onde tirei tal imagem, mas ela sempre pareceu à minha imaginação tão real quanto a minha razão a sabe improvável.

Pensando bem, devem ter sido as suas pernas; pernas torneadas de quem lava roupa de cócoras a beira do rio. Provavelmente a cena, ainda comum no interior, nunca foi protagonizada por ela, garota da cidade ilhada. Contudo, com certeza foi repetida milhares de vezes por suas antepassadas. O esforço de suas infinitas avós resultou naquele par de pernas, penso, dando razão a teoria refutada de Lamarck.

Pernas que ela fazia questão de exibir usando saias e shorts curtos justificados pelo calor – escolhidos pela vaidade.

Aparecia sempre a tarde, mas nem em todas as tardes. A frequência deve ser determinada pelo calendário que algum astrólogo arbitrário inventou para seu uso, eu plagiava Cecília Meireles à noite, enquanto olhava a Lua e pensava se teria a sua companhia na tarde seguinte.

Sempre que vinha trazia umas balas de fabricação caseira que ela chamava de bombons e que eram envolvidas em papel manteiga sem nenhuma identificação. Só lembrava de perguntar do que eram depois que ela já tinha ido embora e tudo que restava da sua presença era aquele sabor indefinível.

Para mim, aquele era o sabor dela.

Nas tardes de mormaço – naquela terra todas as tardes eram de mormaço – nos perdíamos nas conversas até o cair da tarde quando ela anunciava que precisava ir embora e saia de supetão como quem é pego de surpresa pela lembrança de um eminente compromisso importante.

Chamava-se Aghatha – assim mesmo, com dois agás que nomes de grafia incomuns são comuns onde os rios se encontram. O nome caia perfeitamente com seus olhos felinos. Uma espécie de gueixa as avessas, uma gueixa da selva; seus olhos puxados são para mim a prova irrefutável do Estreito de Bering.

Olhos grávidos de guaraná e lendas da Amazônia.

Tinha os gestos lentos de uma bailarina minimalista que dança a música da floresta.

Ela não sabia, mas eu já havia adiado a minha partida algumas vezes por sua causa. Ao cabo de alguns meses embriagado pela sua presença ela desapareceu por mais de uma semana – era o astrólogo arbitrário que me concedeu uma doida falta.

Pensei que fosse explodir de saudade.

Finalmente fui tomado por um lampejo de sobriedade e decidi que minha inevitável partida se tornará também inadiável. Era ir embora ou enlouquecer.

Paguei as dívidas, resolvi as pendências, dispensei o ajudante e arrumei as malas.

Aguardava a carona até o porto – a longa viagem de navio era uma lenta despedida, o luto exigido pela minha sanidade – quando ela apareceu.

O céu carregado fazia o dia parecer noite e acentuava o mormaço. Ela chegou de vestido, viu as malas e as prateleiras vazias assim que passou pela porta. Não precisei dizer nada, Aghatha sabia. Por um instante fez pose de quem vai protagonizar uma discussão – mulher que nasce nesta terra é sempre uma guerreira no amor. Hesitou. Acabou fazendo um muxoxo triste com os lábios, deu meia volta e saiu.

Todas as minhas certezas viraram precipício neste momento. Eu continuava imóvel: qualquer movimento poderia ser fatal – a queda era inescapável.

Foi então que eu vi as balas e a curiosidade me salvou; corri até a janela e gritei-lhe perguntando de que sabor eram. Um relâmpago e um forte trovão ricochetearam antes da resposta.

Mangarataia, ela disse, sem se virar. Não adiantou esconder os olhos: a voz embargada a denunciava.

Choviam gotas espessas.

Tivesse se voltado teria visto que de meus olhos escorriam lágrimas de gengibre.


Carta de um coração sem sonhos

dezembro 9, 2012

Meu caro,

Depois que o perdi dos meus sonhos algo em mim mudou. Essa é uma importância que você nunca chamou para si e da qual, provavelmente, nunca desconfiou, contudo era habitante dos meus sonhos. Não foi chamado a ocupar este lugar, quando me dei conta lá já estava e acostumei-me com a sua presença silenciosa a garantir o lastro das minhas utopias.

Um dia você foi embora dos meus sonhos. Sem que eu pedisse, sem que você soubesse, um dia não o tinha mais por aqui. E depois deste dia algo em mim mudou. Faltam, em meus sonhos, um denominador comum.

O esforço para encontrar outros interlocutores é inútil. As palavras sempre só saiam verdadeiras quando eram direcionadas a você. Não exatamente a você, mas ao seu eu imaginário que morava em um lugar que um filósofo grego um dia soube descrever.

Eu mudei. Sempre fui feita da matéria dos sonhos, hoje sei. Tenho medo de adormecer; temo por pesadelos sem sua ideia a velar meu sono.

Você se foi, e deixou para trás um coração bagunçado que tento organizar em palavras que saem desencontradas, todas, como nesta carta.

Não se engane: não falo de você – falo dos meus sonhos com você. Não se apresse em responder esta carta – ideias não foram feitas para serem tocadas.

Talvez eu esteja com saudade ou apenas precise dormir mais.

Espero que esta carta não lhe tire o sono.

Bons sonhos.


Calor

dezembro 7, 2012

entre quatro paredes sufoco
quente muito quente, o sol lá fora entranha-se casa a dentro
esparama-se pela vida
ferve o meu sangue

pulo a janela para ir de encontro ao fogo.


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