Palavras e ancestralidades. Meu nome.

setembro 23, 2012

Vocês sabem: eu gosto de palavras. Gosto de tudo que elas revelam e escondem. Gosto do seu peso e da sua leveza, da sua imaterialidade e da sua força.

Apenas um nome: Marcela, e novamente me perco por suas dobras e possibilidades. Marcela, nome simples sem ser vulgar.

Tiro um “r” e viro uma planta de flores amarelas, quase feia, quase cheirosa. Curativa, porém – se precisamos de uma qualidade ela provavelmente tem a melhor.

Se coloco um “o” viro morcela, uma das poucas comidas que realmente me reviram o estômago. Comida antiga, vocês não devem conhece-la, mas eu conheço. Nasci em outro tempo, pelo menos é o que parece meu passado bucólico em casas de madeira antiga, cheirando a lenha queimando no fogão onde famílias se fazem fortes pela conversa na cozinha. Conversas são palavras alinhadas pela voz e pelo silêncio.

Palavras.

Gosto de palavras, escritas, ditas. Mesmo que traiçoeiras – elas me desafiam.
Não vou explicar mais, desnecessário: vocês sabem, sempre souberam.


Os homens não usavam gravata

setembro 15, 2012

Não sei precisar quando foi, sei apenas que os homens não usavam gravata. As mulheres tampouco, descrição desnecessária já que pouco sobre elas consta na história das guerras, cúmplices por vezes silenciosas e por outras silenciadas pelos historiadores.

Primeiro não havia muito, mas então acharam necessário demarcar territórios. Esses de um lado, aqueles de outro. Depois, acharam que era melhor não se misturarem. Então pegaram um pedaço de tecido pintado e por ele se fizeram representar. E se aquilo os representava, acharam algo pelo qual valia a pena lutar e morrer.

Depois, criaram leis onde a lei primeira falava da vida humana, bem maior a ser preservado acima de outros. As leis foram depositadas embaixo de pedaços de pano colorido. Talvez escondidas por esta.

Leis, terras, panos coloridos. Nada justificava a guerra e as mortes. Começavam por um motivo estupido qualquer e a estupidez dava o tom das atrocidades que se seguiam interruptas, sempre encontrando mais algum motivo para não cessar.

Os homens não usavam gravatas, mas usavam armas e encontravam no derramento de sangue razão para a sua própria vida.
vida que seria estupidamente perdida no próximo conflito.

A vida que era o motor da guerra.


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