Carta a um coração distante

outubro 30, 2011

Caríssimo,

Escrevo porque preciso escrever algo que talvez você desconheça. Eu mesma não sei ao certo o que é, mas sinto necessidade de escrever e assim o faço.

Começo esta carta chamando-o de caríssimo, contudo o adjetivo tanto faz, o que importa é o superlativo, afinal, tudo em você é intenso. E é a intesidade o que me encanta em você: o olhar penetrante, o riso descontraido, o pensamento profundo. Não posso esquecer do abraço que parece querer tocar o outro, puxá-lo para o seu mundo – e o mundo retribui em amigos e amores.

Já me esbaldei da sua compania e hoje, sinto dizer, tenho saudades.

Nossos encontros não são físicos: é um encontro de almas, e o brilho no olhar não deixa mentir.

As vezes penso que o amo. Muitas outras, penso que você é apenas mais uma obsessão, entre tantas.

Difícil me curar de você. Nunca tive tantas recaídas de uma mesma doença. Meus sistema imunológico se rendeu ao seu charme.

É estranho como nos apegamos as obsessões. Mais estranho ainda é como elas fazem parte de nós, e quando menos esperamos, passam a nos definir.

Já fizemos muito para nos aproximar, mas acabamos ainda mais distantes.

Não escrevo para marcarmos um encontro. Sei que só seremos possíveis em um encontro casual.

Casualmente, esta carta o encontrará.


4 e(u)stações

outubro 23, 2011

Já pensou em como o clima muda a forma como nos relacionamos com o mundo? Se são quatro as estações do ano, quatro são as diferentes formas que vivemos cada uma delas.

No outono um casaco passa a compor nossa vestimenta e pelas ruas nos pegamos hipnotizados com o movimento ritmado das vassouras que varrem as folhas caídas das árvores.

As árvores se despedem de partes de si ao prepararem para os rigores do inverno. Nós também no depidimos de algumas das nossas caracteristicas expostas na estação anterior e ficamos mais introspectivos, mais caseiros, as palavras ganham outro peso e começamos a falar mais baixo.

O inverno chegou sorateiro na madrugada e seu hálito congelante nos impele a ficar na cama. O abraço fica mais demorado, pois junto é mais quentinho. As rodas de converas migram em busca de sol, e os raros dias ensolarados ganham céu de brigadeiro.

O ar da estação deixa os sons mais limpos. As conversas na cozinha se estendem e ganham em profundidade. Com sorte teremos um fogão a lenha para relembrar histórias de outros tempos reproduzindo a cena ancestral da aldeia em torno da fogueira.

Os laços se estreitam.

Amadurecemos.

Chega a primavera com sua brisa fresca e renovadora. Nós ficamos mais leves sem tana roupa, as janelas se abrem e nelas se penduram cobertores e tapetes, todos querem aproveigtar a dádiva dos generosos raios de sol.

As ruas se enfeitam de flores e a cidade se enche de um bururinho alegre de novidade.

No verão os dias são mais longos, tomamos conta da rua. O riso flui mais solto e nós ficamos abertos para fazer novas amizades. As chuvas convidam para um banho.

Com rouopas leves redescobrimos o próprio corpo, andamos saltitando e o clima convida para dançar. As tardes de calor são tomadas pelo canto das cigarras.

Assim, somos camaleões, e vamos aprendendo a variar. Aprendemos a observar a natureza e esperar o seu tempo. Quando o clima toma conta da nossa vida ela se diversifica e nos tornamos personagens criativos moldados pelo calendário.


Carta a um coração sem perdão

outubro 16, 2011

Diz o poeta “Quem fala primeiro diz a verdade”. Fico quieta porque não quero essa verdade para mim.

Se você quiser dar a sua versão dos fatos, fique a vontade. Não desejo a responsabilidade de fazer com que alguém se posicione de um lado dessa história às custas da minha habilidade em amarrar as palavras.

Prefiro aparecer como vilão em sua narrativa a inventar um vilão para contar a minha versão.

Eu sei o que aconteceu e você também sabe. Não tivemos uma razão plausível para brigar, mas agora cada um tem razões de sobra para se sentir magoado.

O momento me leva a pensar que a dor é eterna; o Budismo me ensinou a ter paciência que tudo passa. O cinema insiste em dizer que existem mocinhos e bandidos, a vida me mostra que tudo é contexto, que nem vilões nem heróis existem e que tudo é  uma questão de como se narram os fatos.

Poderia aproveitar para pedir desculpas agora, mas já o fiz uma vez e, frente aos resultados, prefiro destilar essa mágoa até a dor passar.

Ela vai passar, e a minha alegria, que tanto lhe incomoda, vai continuar a transbordar em qualquer direção a despeito dos seus ouvidos.


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