Psicologia, um outro porquê

agosto 30, 2011

“- Por que você fez psicologia?”
“- Porque gosto de viver perigosamente.”

Esta é uma da muitas respostas que você pode ouvir ao fazer-me a pergunta acima. Em seguida, após observar sua cara de espanto e incompreensão vou dizer um “estou brincando”, e lhe contar uma história mais plausível e real dos motivos que me levaram a escolher esse caminho. Contudo, nem por isso, deixo de considerar que ser psicóloga é uma forma de viver perigosamente. E quando digo perigosamente falo em muitos sentidos.

Os riscos mais reais estão ligados a clientes perigosos cara-a-cara com você em uma salinha reservada, tratando de assuntos explosivos. São familias complicadas fazendo diversos tipos de ameaças. São clientes e familiares tentando seduzi-lo a conclusões errôneas, mais convenientes com a manutenção de suas vidas doentias. Isso mescaldo por ameaças trabalhistas; chefes que não sabem para que serve o seu trabalho; os erros a que pode incorrer no exercício da sua profissão e todos os dilemas que provém do medo de comete-los.

Outros perigos são ainda menos objetivos – são caminhos tortuosos que um psicologo percorre sozinho. Os psicologos usam de teorias para olhar o mundo de uma forma incompreesivel para a maioria dos outros humanos. Outras profissões podem afirmar o mesmo dentro de suas areas de atuação, e admiro-as por isso. E na faceta que cabe a psicologia é aquela tentativa sincera de compreender o humano, abdicando ao moralismo e ao misticismo. Quando um psicólogo consegue fazer isso, ao menos em parte , ele compreende as infinitas possibiliades de uma vida melhor que pequenas mudanças de comportamento podem acarretar e se sente impotente com seu trabalho de formiguinha com a sua ciência ainda tão nova e ainda com tanto a descobrir, compreender e produzir.

Ser um psicologo, pelo menos para mim é sentir a riqueza e as possibilidades do mundo que uma compreensão profunda do humano proporciona e sofrer por não conseguir compartilhar isso com mais ninguém. Eu sei que este relato está parecendo pura arrogancia, mas hoje é 1º de maio, dia do trabalho e eu precisava fazer esta declaração de amor a minha maltrada profissão.

* Este texto foi escrito em um primeiro de maio perdido nos anos, durante uma conexão no aeroporto de Brasilia. Resgatei ele agora, aproveitando que o dia do Psicólogo foi 27 de agosto.


“Wonderful” uma palavra para a vida

agosto 18, 2011

Acredito ter ouvido, há alguns anos, uma história que muito me tocou, mas que, para lembrar desta, conto apenas com a minha memória. Inicio o texto com esta ressalva porque citarei pessoas reais. De toda forma, mais importante é o que ela representa.

Anos atrás vi uma palestra com a Dra. Julie S. Vargas, filha de Skinner. Era um congresso em que, além das atividades acadêmicas, comemorava-se os 100 anos do nascimento deste grande psicólogo. Na sua apresentação, Dra. Julie contou algumas histórias de seu pai, inclusive as condições de sua morte. Todos sabíamos que Skinner, doente terminal de leucemia, trabalhou em um artigo até o dia anterior a sua morte e, uma semana antes, havia se apresentado na Associação Americana de Psicologia. Nós tínhamos conhecimento dos dados acadêmicos, por assim dizer, o que teria se passado em sua vida pessoal não nos pertencia.

Dra. Julie generosamente contou-nos o que havia se passado. Com emoção, compartilhou a sua última lembrança de seu pai. Segundo ela, pouco antes de morrer ele lhe pediu um copo d’água, bebeu, e depois exclamou: “Wonderful” (maravilhoso).

Skinner morreu aos 86 anos. Depois de tanto vivido, chegou ao final e ainda se encantou com a vida, se encantou com a simplicidade de um copo d’água.

Isso me tocou profundamente. Desde então os meus objetivos de vida são perpassados pelo pensamento de poder chegar ao final e dizer com sinceridade: maravilhoso.


Uma lição de carinho

agosto 1, 2011

Alguns anos atrás, enquanto caminhavamos, meu pai me contou o seguinte:

“Sabe, quando você e as suas irmãs eram pequenas era muito bom. A gente trabalhava muito, e as vezes chegava bem cansado e chateado do trabalho, mas lá estavam vocês precisando da gente. A gente cuidava, brincava e era outro mundo.”

Quando ouvi essa história meus olhos encheram d’água. Na verdade, hoje ao conta-la aqui, meus olhos marejaram novamente.

Ternura foi o sentimento que me inundou quando entendi o amor que meu pai sente por nós, suas filhas. Até então eu nunca havia compreendido o que leva uma pessoa a ter filhos, já que estes se resumiam apenas a mais trabalho e desgostos.

Ao compartilhar essas palavras, o que meu pai ensinou foi humildade áquela adolescente blasé que as vezes pensava saber demais.


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