Gari

Um sabor marcante era o que vinha a sua boca toda vez que a via. Ela era a japonesinha que toda tarde sentava no café da livraria do bairro e ficava lendo um livro compenetrada bebericando um chá.

Foi por acaso que a viu em uma tarde em que fora atrás de um livro qualquer e um cheiro familiar lhe chamou a atenção. Seguiu o aroma e seus olhos pousaram naquela figura fascinante. Parecia uma miragem. Era algo tão sublime que quando ela foi embora ele não conseguia mais descrevê-la.

No dia seguinte, meio que por instinto, voltou a livraria sem motivo. No fundo sabia que sua ida estava mais do que justificada. Sabia que era aquela visão que tanto o entorpecera que queria ver de novo. E viu.

Deste dia em diante, dava um jeito de passar na livraria por este horário para apreciar a japonesinha.
No começo, mesmerizado que estava pela sua aparência, não pensava em muita coisa. Nem em se aproximar. Olhar bastava, na verdade era o suficiente para atordoa-lo até o dia seguinte.

Só não a via aos domingos; tristes domingos em que a livraria não abria.

A japonesa não fazia ideia do que acontecia. Chegava, pegava um livro em sua bolsa, pedia um chá, e por alguns minutos era toda leitura e degustação.

Para ele era como uma apresentação com hora marcada. Era como se ela estivesse representando a milenar cerimonia do chá. Ela agia, ele admirava, sem aplausos, sem tietismos, cada um fazendo seu papel de ator e espectador. E a vida seguia, a dele influenciado pela a arte de existir dela.

Com o passar dos dias começou a observar outros detalhes, como as suas leituras, as suas roupas, a forma como posicionava a cadeira para melhor acomodar o livro.

Começou a pensar em aborda-la, mas tinha medo de quebrar o encanto. Respirava fundo, aspirando aquele sabor que tinha o cheiro dela, tentando tomar coragem para a abodagem.

Por estes dias algo passou a intrigá-lo. Que bebida era aquela que sua musa tomava? O nome parecia flutuar no ar brincando por entre as partileiras de livros, se escondendo dele que ficava com um gosto sem nome na boca. Ela não pedia. Havia um acordo implicito entre ela e a atendente. Sentava-se e logo vinha a xícara misteriosa.

Ele sentia aquele cheiro inebriente que já estava se tornando uma obssessão e ficava tentando decifrar do que seria.

Até que um dia, sentado na mesinha ao lado dela, disse o nome que tanto o artodoava: gari.

Era um chá de gari.
Naquele instante a moça deixou a leitura de lado e voltou-se para ele. O que aconteceu depois disso é outra história. Mas posso adiantar que aquele nome de quatro letras foi o código que desencadeou um amor em notas de gengibre.

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