Manauara ou Manauense*

junho 27, 2011

Toda cidade ou região tem vocábulos que a caracterizam. Manaus não escapa a regra, pelo contrário, o vocabulário de
Manaus é tão vasto que tem até nome: Amazonês.

Em Manaus, bombom é bala e bala pode ser outra coisa (vide bala de cupuaçu). Cuidado quando o prato tiver mangarataia, afinal, pode ser que você não goste tanto assim de gengibre… Se a comida tiver murupi é melhor nem arriscar – a não ser que você seja muito fã de pimenta.

Pedir um guaraná pode ser um dilema, já que poderá escolher entre Real, Baré, Magistral, Regente…
todos refrigerantes de guaraná, cada um com um sabor diferente.

Bombom – aquele de chocolate – pode ter recheio de: açaí, bacuri, buriti, cupuaçu, araçá-boi, camu-camu… Também pode
ter recheio de castanha da amazônia – nunca chamada de castanha-do-Pará porque “se for do Pará rouba o gosto”, já que
em Manaus “paraense” é sinônimo de ladrão**. Aliás, chamar alguém de paraense em Manaus é xingamento – e dos piores! -, sendo, inclusive, a causa declarada de algumas mortes.

Rotatória é bola; lagartixa é osga; mosquito é carapanã; cajá é taperebá; grande é maceta; pivete é galeroso; idiota é leso e idiotice é leseira.

Costas é costa com toda a conjugação decorrente da retirada do “s”. Ponto de ônibus sempre será parada de ônibus, e é
melhor não se confundir e dizer que vai para o ponto porque ponto é outra coisa.

Se falarem que você é pai-d’égua não se preocupe: não estão te chamando de cavalo. O que estão dizendo é que você é
muito legal.

Maninho é uma espécie de vocativo do tipo “cara”, mas é de um jeito carinhoso. Alias, se você gosta de carinho pode ir
a Manaus, que lá todo mundo é chamado de querido, amado, amor…

Garantido e Caprichoso são mais do que adjetivos e, se alguém perguntar “qual é o seu boi?”, cuidado para não dizer o
nome do seu marido… Se for convidado para ir aos currais dos bois, provavelmente não estão o chamando para ir a uma
fazenda e sim a um ensaio de Boi-Bumbá. Se aceitar o convite é melhor não falar o nome de um boi no meio da torcida do outro. Ao invés do nome, o boi concorrente é sempre chamado “o contrário”. E a torcida de boi é a galera.

Inverno não é uma época do ano em que faz frio, mas sim em que chove muito. E seca não é uma época em que não chove e sim quando chove um pouco menos. É por isso que a Amazônia é chamada de “rain forest”. Frio, em Manaus, é um conceito abstrato e distante e sua definição só é possível com auxilio da tecnologia: frio é aquilo que você sente quando o ar-condicionado está no máximo.

“Morreu de colar” pode ser algo como “estou dentro” ou “já é”, se é que você me entende. Até o tucupi significa “até o
talo” – isso está ficando complicado…

Pirarucu a casaca não é um peixe vestindo smoking.

Farinha com peixe é uma delicia, mas cuidado para não quebrar o dente com a farinha do Uarini, típica da região. Aliás,
em Manaus se come qualquer coisa com farinha. Tanto é assim, que farinha com água e açucar é um prato típico que tem até nome: chibé.

Adultos chamam o intervalo para lanche de merenda – sim, igual no jardim de infância – e pai e mãe sempre serão
papai e mamãe, independente da idade do filho, em um falar tão carinhoso que enche de ternura filial o desavisado interlocutor!

Maninho, se você leu até aqui você é pai-d’égua!

E se estiver se perguntando como foi que eu aprendi tudo isso, a resposta é simples: barezei até o tucupi!


*  Este texto é uma descrição de algumas peculiaridades da linguagem manauara que me chamaram a atenção (algumas delas compartilhadas por outras partes da região norte). Este texto é uma forma que de valorizar essas diferenças e marcar este momento especial da minha vida em que resido em Manaus.  
** Isso é um fato linguístico, nesse texto não estou fazendo juízo de valor.

Ps.: Esse post foi sugestão do grande @inagaki do Pensar Enlouquece.

Ps2.: Consultei o livro Amazonês do prof. @sergiofreire para fazer esse post.


Carrego a liberdade na bolsa

junho 19, 2011

   Sempre levo comigo um livro na bolsa. Sobrou um tempinho e já estou lendo, cultivando um vício da infância. Carregar livros consigo é uma libertação. Não se sofre mais com filas, com atrasos, com a solidão de ter levado um “bolo”. A vida ganha intervalos recheados de poesia.

E, ainda, corre -se o risco de ganhar novos amigos. Muita gente vê no livro um sinal para puxar assunto perguntado se é bom, fazendo um comentário sobre aquele autor, ou simplesmente para fazer um elogio ao seu pouco comum hábito… Pode ser até a deixa para uma paquera, já que, como me ensinou Alessandro Martins, ler é sexy.

Costumo dizer que um livro é um bom álibi. Nunca se está sozinho na companhia de um deles.

    E, da mesma forma como pode ser a deixa para uma conversa, um livro pode também ser a desculpa para não ser perturbado, tudo depende da postura do leitor.

Com um livro fica-se livre para sonhar. Liberta-se do presente e vamos para algum outro lugar, aprender novas formas de pensar e desejar.

É um jeito de despertar a inveja naqueles que no cercam, que  nos observam entretidos, divertidos, rindo de uma frase espirituosa ou comovido com uma passagem mais tocante – portadores de um segredo sussurrado pelo autor diretamente em nossos olhos.

De tanto ter empatia pelos personagens inventados aprendemos a ser menos egoístas e, quando damos um tempo na leitura, aprendemos a ler os rostos, os lugares, as situações. Viramos leitores atentos do mundo, esse mundo que é cheio de histórias e enigmas.

Sempre carrego um livro comigo fazendo com que a bolsa-biblioteca perca um pouco de espaço e ganhe muito em imensidão.


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