Encanto

março 27, 2011

Há alguns anos havia um encanto natural nela. Sua forma de ser transpirava doçura. As pessoas se apaixonavam sem querer, não havia esforço nisso, eram vidas se encontrando. Mesmo quem só a conhecia pelas palavras, sem nunca ter experimentado o som do seu sorriso, caia no feitiço. Mas ela não queria isso. Ela não sabia como lidar com isso. Então prometeu a si mesma que não faria mais isso.

Não encantaria mais.

Na semana seguinte aconteceu novamente: outra paixão acontecia sem querer. Assustou-se ao perceber que promessas não bastavam, seria necessário muito esforço para mudar sua natureza. Disciplinou-se para isso e pouco a pouco foi escondendo sua doçura, esvaiu-se seu encanto.
Hoje ela anda, ora como se tivesse um vazio em seu peito, ora como se carregasse uma pedra.

Hoje é naturalmente sem paixão. Alguns dizem que ela é misteriosa, e ela sempre se surpreende com afirmações dessa natureza. Talvez o mistério venha do esforço em esconder o seu encanto e nos relampagos desses que deixa brevemente escapar escapar.

Descobriu que não sente mais prazer em encantar e que sente falta desse prazer.


Carta a um amigo casado

março 20, 2011

Meu caro amigo, escrevo-te em nome de uma preocupação que surgiu em nosso último encontro. Sim, fiquei preocupada ao ouvi-lo chamar a sua esposa de madame. Nessa hora, ela envelheceu vários anos, e nenhum mulher gosta de se sentir envelhecida na fala do seu amor. Por favor, não a chama mais assim, nem do seu correlato bastante usado: patroa. Use um formal “minha esposa”, “minha mulher”. Ou um romântico “minha amada”. Entre tantos outros adjetivos mais adequados para a sua companheira de tantos sonhos.

No encontro você disse “Tenho que comparar um presente para a madame”. Ora, ela é a mulher com quem você escolheu um dia casar e compartilhar a vida, e que todos os dias você escolhe permanecer ao seu lado. Mas ao dizer isso nega essas escolhas e se põe no lugar de um servo a servir um senhor por um contrato firmado por algum antepassado desconhecido.

Como não é assim, você não “tem” de presentea-la, você “quer” presentea-la. Ela é o seu amor e merece ser mimada.

Da próxima vez, gostaria de vê-lo dizer: “Eu quero dar um presente lindo para a minha amada”.


Pequena homenagem a grandes mulheres

março 14, 2011

Mulheres são Joana D’Arc lutando por um ideal.

Mulheres são Penélope bordando e desbordando tapetes infinitos feitos de paciência.

Mulheres são Zilda Arns criando Pastorais para curar as dores do mundo.

Mulheres são mães e levam na face um olhar terno para acolher aqueles que delas precisarem.

Mulheres são Helena provocando guerras e mudando os rumos da história por causa do amor.

Mulheres são Alice mudando o lado do espelho todos os dias ao assumirem algum dos muitos papeis que desempenham como profissional, mãe, dona de casa, esposa, esportista…

Mulheres são guerreiras que aprenderam a lutar com os homens lado a lado em prol das muitas causas justas em que acreditam.

Mulheres são mistos de ternura e firmeza e, cada uma da sua forma, são lindas em sua graça feminina. E, como diz Victor Hugo, “Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções importantes como esta de ser encantadora”.

 

Ps.: Post dedicado a Todas as Mulheres em Mim. Post dedicado a Célia Musilli.


Carta a um coração que se foi

março 9, 2011

Quando você foi embora eu sonhei que a casa caia sobre mim, sobre nós. Entretanto, você foi embora e a casa continua em pé. Eu também continuo em pé. Agora divido a casa com a solidão e não sonho mais com você. Pode soar triste, mas é para soar calmo. Talvez essa calma de que é feita a maturidade, talvez uma simples anestesia da melancolia.

Há um ano você se foi e aprendi a ocupar os espaços que ficaram sem os seus sons. As vezes acho que fiquei mais parecida com você agora. Com certeza fiquei mais próxima a mim.

Sem teus olhos a vigiar, a minha dança ficou mais fluida e me encanto com alguns movimentos. Canto mais, é verdade, contudo, a minha voz ficou mais quieta sem teus ouvidos a reinventar as minhas histórias.

Você vai me perguntar se sinto saudade. Eu não acho essa resposta importante.
A casa continua em pé. Você voltaria?


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