Quando falta luz II

agosto 29, 2010
“O melhor é cantares cantigas loucas e sem fim…
Sem fim e sem sentido…
Dessas que a gente inventa para enganar a solidão dos caminhos sem Lua.”
Mario Quintana

Manaus é uma cidade muito quente. Seu calor úmido deixa a vida mais cansativa e me torna ainda mais lenta. O Sol aqui tem uma intensidade tamanha que eu tenho a impressão de que as coisas são mais brilhantes nesta altura do país.
Em Manaus são duas as estações do ano: a estação da chuva e a da seca. É ai que entra a falta de luz. Na época da chuva os raios e as tempestades não poupam o sistema de distribuição de luz da cidade e cada pingo d’água vindo do céu e uma queda de energia em potência.
Já na época da seca ou verão, como chamam por aqui o periodo compreendido entre abril e outubro, a queda da luz se dá pelas estratégias que todos usam para diminuir o calor excessivo da época. Ventilador, ar-condicionado, geladeira são alguns do vilões do nosso combalido sistema de distribuição de energia elétrica, já que a cidade é pródiga no número de ligações ilegais na rede elétrica – os assim chamados “gatos”. E ai, com a cidade parecendo uma panela de pressão e o asfalto da ruas uma frigideira pronta para fritar ovo, a falta de energia se faz certa.

Aviso que toda essa introdução é inútil frente aos fatos.
Ontem eu estava voltando para casa no meu andar habitual quando faltou luz. Quer dizer, faltou energia elétrica, porque luz sobrou: era a Lua encantadoramente bela, impressionantemente cheia, iluminando tudo com seu brilho azulado.
E a minha cantiga era alegre porque em meu caminho havia a Lua.

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Quando falta luz

agosto 18, 2010

Então é isso: verdades só são ditas no escuro.
Quanto falta luz o mundo fica menos real, fica menos real o que nos amedronta, fica menos real o rosto que nos reprova.
A única coisa que vemos é a possibilidade imensa do presente e o seu sorriso, frágil prova da sua aprovação.
O seu sorriso antes do beijo redentor.
E as verdades, que só são ditas no escuro, aparecem – tão natural.
Que loucura! A verdade era que você me amava. Era escuro, eu não vi essa verdade escondida em seus olhos. Mas era verdadeiro o seu amor; tão real quanto a penunbra, nosso melhor álibi.
Em nome da coerência, por sempre ter amado a verdade e defendido a justiça – essa cega como a visão do escuro -, nunca mais vou pagar a conta de luz.


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