Sendo a contradição

Deve ser um bocado estranho quem me vê pela cidade assim, vestida com roupa esportiva, tomando café em uma conveniência enquanto leio um livro de literatura, desses que há muito tempo ninguém mais lê – não em público, pelo menos.

Pura contradição.

Desconfio que o ar simpático das atendentes não seja retribuição da educação que dispenso a elas, mas sim que seja fruto da benevolência que costumamos dispensar aos loucos.

Lembro-me de um tempo de definições mais fáceis onde loucos eram todos aqueles que eu não conseguia entender. Hoje eu entendo a todos, sobretudo aos loucos. Os loucos e estas atendentes de ar benevolente, tão fáceis, tão simples com seus aventais brancos, que eu quase me apaixono.

Sou salva deste delírio pela conta, nada benevolente, do meu café.

Com meu ar distante e um livro guardado na bolsa tomo novamente as ruas onde posso ser confundida com uma destas atendentes ou com outros loucos.

Desconfio que seja sempre confundida com outros loucos.

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2 Responses to Sendo a contradição

  1. Djabal disse:

    “Todos nascemos loucos. Alguns permanecem.” Samuel Beckett.
    A educação e o respeito são sinais muito significativos desse estado de espírito, em um mundo tão disforme, corrosivo e por isso mesmo, fragmentado. Beijos.

  2. Acho que sua atitude é racional demais…por isso destôa…quem lê livro de literatura em público hj em dia?

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