Loteria ou o número da esperança – Uma história sobre improbabilidades

novembro 29, 2009

A loteria havia acumulado novamente. Para onde quer que se olhasse, o que se via era a mídia anunciando o grande premio ou pessoas comentando sobre o assunto.

A loteria acumulara, era fato, e as contas apertavam, outro fato.

Desta vez cedeu a pressão e a expectativa geral. Cedeu, principalmente, à esperança.

Seguiu, quase sem pensar, tantos outros que se dirigiam ao mesmo lugar, naqueles dias em que todos juravam carregar em si a semente da sorte.

Entrou na lotérica, estava lotada. Com algum custo conseguiu um bilhete, e com um custo um pouco maior conseguiu uma bic amarrada ao balcão por uma pequena corrente.

Então olhou para os lados. Todos compenetrados no seu jogo. Alguns faziam o sinal da cruz, seguravam algum santinho ou patuá. Outros faziam contas, ligavam para parentes, lembravam de sonhos.

Foi quando se deu conta de que não sabia jogar na loteria. Nunca havia jogado e não tinha a menor idéia do que devia fazer. Olhava para o lado e via: qualquer um sabia jogar na loteria, menos ele.

Ficou atordoado com tal constatação, e saiu para a rua, onde seus atos faziam sentido. Conforme se afastava da loteria foi ficando aliviado. Estava livre do peso da esperança jogando contra as probabilidades.

Não sabia jogar na loteria e sabia que nunca aprenderia.

* História baseada em fatos reais

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Sendo a contradição

novembro 15, 2009

Deve ser um bocado estranho quem me vê pela cidade assim, vestida com roupa esportiva, tomando café em uma conveniência enquanto leio um livro de literatura, desses que há muito tempo ninguém mais lê – não em público, pelo menos.

Pura contradição.

Desconfio que o ar simpático das atendentes não seja retribuição da educação que dispenso a elas, mas sim que seja fruto da benevolência que costumamos dispensar aos loucos.

Lembro-me de um tempo de definições mais fáceis onde loucos eram todos aqueles que eu não conseguia entender. Hoje eu entendo a todos, sobretudo aos loucos. Os loucos e estas atendentes de ar benevolente, tão fáceis, tão simples com seus aventais brancos, que eu quase me apaixono.

Sou salva deste delírio pela conta, nada benevolente, do meu café.

Com meu ar distante e um livro guardado na bolsa tomo novamente as ruas onde posso ser confundida com uma destas atendentes ou com outros loucos.

Desconfio que seja sempre confundida com outros loucos.


No cafezinho

novembro 12, 2009

– Não entendo porque o chá e o café já não vêm adocicados…

– Simples. É para lembrar que ser doce é uma opção.


Retornando

novembro 1, 2009

Cozinho uma receita sem gosto e sem graça para anestesiar a compulsão de meus dias.

Ao lado, um chimarrão que traz o amargo para a boca, tornando especial o momento certo da saudade. Saudade que sempre varia nos dizeres, apesar de o sotaque não variar.

Gosto de viajar, já declarei isso milhares de vezes. Declaro novamente. Viajar é ter oportunidade de sentir saudade do que era rotina. Viajar é sentir saudade do que ainda está por vir, da descoberta de um tempo paralelo em outra parte do planeta.

Ontem voltei de viagem, hoje é dia de esquecer com o que quase me acostumei.

É mais fácil arrumar as malas do que desfazê-las e assim também é com sonhos que depois de desfeitos trazem uma sensação de alivio tão grande que esquecemos do porque estávamos tão apegados a aquele  sonho. Fazer as malas é lutar contra a sensação de estar esquecendo alguma coisa. Sonhar é lutar com a realidade.

A comida ficou pronta e a mala está desfeita. Ainda me resta este chimarrão frio para sorver um pouco desta saudade sem prazo de validade.


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