As tuas palavras

agosto 23, 2009

Hoje, ao acordar, logo vi que os barulhos da rua eram matinais demais para ser tarde,

Que a manhã era clara demais para ser chuva,

Que tuas palavras ecoariam em meus ossos

para sempre.

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O Homem que guardava arte embaixo do colchão

agosto 16, 2009

Os tempos eram difíceis. Uma guerra estava em andamento e as pessoas se preveniam das dores como podiam. As hordas de fugitivos aumentavam a cada dia, e não haviam lugares seguros onde pudessem parar ou bússola que os norteassem. As pessoas fugiam, fugiam sem saber exatamente do que – fugiam, principalmente, delas mesmas.

Uma guerra estava em andamento e poucos se prestavam a ajudar. Ainda menos pessoas sabiam que precisavam de ajuda.

Nas cidades do interior a guerra era mais cruel porque o desentendimento era maior.  Ninguém estava disposto a aceitar o outro, todos eram incitados a fugir, mas as barreiras para com os fugitivos eram quase impossíveis.

Em uma dessas cidades havia um homem que possuía uma fé apaixonada pela humanidade e a quem essa guerra feria com maior intensidade, como fere a todos que se tornam conscientes do holocausto sem razão das guerras.

Esse homem, após muitos questionamentos, decidiu abrir a sua casa para acolher aos fugitivos.

Muitos bateram à sua porta. Poucos permaneceram.

Sua acolhida assustava pela intensidade, e seus “remédios” nada mais eram do que apelos à razão, razão tão esquecida, tão chocante, que era tratada como loucura.

A guerra se intensificava e aqueles que aceitaram sua acolhida estavam cada vez mais inquietos. Percebendo a desilusão, o homem decidiu que era chegada a hora de compartilhar com eles seu último tesouro. Reuniu todos e disse que guardava suas preciosidades embaixo do colchão. “Deve ser algo muito valioso para ser guardado embaixo do colchão”, pensaram todos.

O homem foi tirando um a um telas e poemas do seu esconderijo. As telas eram exibidas com vagar tentando aproveitar vários ângulos de luz. Os poemas eram lidos com paixão e urgência. Quando começou a exibi-los uma decepção tomou conta de todos, “ora” – pensavam – “no que isso pode nos ajudar?”.

Contudo, conforme as telas e poemas foram se sucedendo eles tocaram o que havia de mais intimo nos presentes. A sensibilidade foi sendo aguçada e foram todos levados a um tempo de delicadeza.

Quando se acabaram as obras, houve um momento de silêncio, outro de despedida e um terceiro de dispersão.

Agora eles não fugiam mais, caminhavam levando esperança em seus olhos. Esperança que era o legado de um homem que guardava arte embaixo do colchão.

 

* Esse texto é uma homenagem ao meu grande amigo Gilbert Antônio, um homem que guarda arte embaixo do colchão.


Um tanto de beleza e outro tanto de moral

agosto 3, 2009

Uma coisa que eu queria era que meus textos fossem amorais. Que neles não prevalecesse esse tom professoral que as vezes meus textos apresentam.

Contudo eu sou um ser social, com um tanto de experiência de vida outro tanto de coisas por aprender e um universo inteiro de coisas que nunca sequer suspeitarei que existem… Enfim, minha moral existe, muda conforme vivo coisas novas, e deixo que ela transpareça nos meus textos mais do que gostaria.

Justificativas dadas, esse texto tem conotação moral.

Dentre algumas coisas que eu aprendi por essa vida uma foi que, independente da aparência, as pessoas podem nos ensinar muito.
As duas palavras importantes na frase anterior são: ensinar e aparência.

Cuidar da aparência é importante, você sabe. A sua mãe ensinou isso pra você e as revistas de moda também.

Se você é uma pessoa bonita e bem cuidada, bom pra você. Com certeza você tem um bocado de sorte na vida. As pessoas em geral gostam de pessoas bonitas e bem vestidas, eu gosto delas, e você provavelmente gosta também.

Contudo, beleza só é credencial de beleza. Uma pessoa não é mais interessante por ser bonita. Em geral, pessoas bonitas se levam a sério demais, levam beleza a sério demais. E fica muito feio uma pessoa chata que se leva a sério demais.

Fica mais feio ainda quando essa pessoa é preconceituosa e discrimina pessoas pela aparência. Coisas como, “ele é feio, mas é dedicado”, “ela é sem graça, mas é inteligente”, doem. É como se por ter uma aparência menos aprazível a pessoa se desqualificasse para qualquer outra coisa. Como se não existisse qualidade maior que a de ser belo.

Pessoas idosas, em geral tem muitas histórias para contar.

Pessoas com deficiências físicas tem histórias para contar.

Você tem histórias para contar, e eu não sei nada sobre a sua anatomia.

Belo ou não, entenda uma coisa: se deixássemos de medir pessoas por aparências ganharíamos tempo e imputaríamos menos tristeza nos outros.

Em suma: menos preconceitos e mais alegrias.

Pense nisso. Você só tem a ganhar. Até em beleza.


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