Zingiber officinalis

março 15, 2009
* Este texto faz parte da série “Os muitos nomes do gengibre”.

Nesta época eu estava envolvido com um projeto que estudava algumas plantas aromáticas comuns no Brasil, e também estava ocupado com alguns artigos mais antigos que falavam sobre plantas medicinais e dois grupos de estudos sobre… sobre o quê mesmo? Não lembro, só sei que os adorava, não tanto pelos artigos discutidos, mas porque no fim sempre acabávamos discutindo futebol ou falando mal de algum professor. (Nota: fazer projeto para estudar variedades de grama para gramado de futebol.) Enfim, estava imerso na rotina de um estudante de pós-graduação em biologia.
Parece incrível, mas eu gostava do que fazia. Ainda gosto. Ficava, todos os dias, pesquisando depois que a maioria dos funcionários já havia se retirado. Digo funcionários, porque sempre ficava uma dúzia de pesquisadores por lá. Fazer pesquisa e ficar depois do expediente são quase sinônimos. Nestes momentos, ficávamos cada um em seu canto, concentrados em seus estudos, sem aquele burburinho do dia. Mal trocávamos palavras. Quando muito, nós nos esbarrávamos na cafeteira – não sei pra que estudar tantos chás se no final sempre tomamos a mesma coisa.
Naquele dia sai do Laboratório um pouco mais cedo que o habitual e fazia o percurso entre o ponto de ônibus e a minha casa distraído, como sempre, quando fui arrebatado por um cheiro. Parei onde estava, tentando distinguir que cheiro era aquele e de onde vinha. Fiquei assim por alguns minutos, até perceber que aquele cheiro forte, agridoce, vinha de uma casinha antiga, cercada por arbustos e com um portão baixo. Nunca tinha prestado atenção naquela casa, mas sabia que ela estava ali desde sempre.
Fui embora com aquele cheiro penetrante embalando meus pensamentos. Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar de que planta vinha aquele aroma tão marcante.
Por alguns dias a cena se repetiu.
Certa noite tomei coragem e resolvi bater à porta. Uma senhorinha, tão branquinha que parecia um algodãozinho com seus setenta e tantos anos,  abriu a porta com um sorriso meigo e um olhar inquisidor. Cumprimentei-a e expliquei que há dias passava pela frente da casa e sentia um cheiro que não conseguia distinguir, perguntei se ela podia me dizer qual era. A senhora me convidou a sentar na cadeira da varanda e apreciar um chá, de onde vinha o cheiro que eu estava sentindo.
O bom-senso já havia me abandonado por completo quando me vi sentando na varanda da senhora prestes a saborear aquele intrigante chá.
O gosto forte e adocicado tomou conta da minha língua, e o vapor penetrava pelo meu nariz quando de minha boca escapuliu a palavra tão procurada:  Zingiber officinalis.
A senhorinha me olhou intrigada, quando expliquei que aquele era o nome do chá. Ela, agora, me olhava um olhar complacente e, com paciência, me dizia que eu estava enganado, que aquele chá era de gengibre e que ela vinha o tomando há alguns dias para curar uma rouquidão de gripe.
Desta forma simples aquela senhora me disse algo que tomou dezenas de páginas da minha dissertação.
Enquanto terminava de apreciar o chá, conversamos sobre banalidades e o sabor do gengibre me fazia pensar no quando fazia falta esta vivência das ruas.

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Carta ao coração de um estranho

março 10, 2009

Você não me conhece, por isso, vou começar me apresentando. Gosto de sorrir e cantar. Gosto de ver as pessoas próximas a mim sorrindo. Minha alegria é algo fluido e constante, mas não tente prende-la. Minha alegria é natural e selvagem. É como o pássaro silvestre que quando preso perde o canto.
Um dia nós nos encontraremos – eu gosto de conhecer pessoas – serei gentil com você e espero fazê-lo sorrir. Se a conversa fluir, você se sentirá como se estivesse conversando com alguém que conhece há muito tempo – e ficará admirado com isso. Estará à vontade, confortavelmente à vontade, e é ai que as coisas começam a dar errado. Para você é como se me conhecesse há muito tempo, mas, para mim, você continua a ser um desconhecido. Não tente criar uma intimidade que não existe. Não fale dos meus sentimentos como se os conhecesse. Lembre-se do pássaro silvestre. Se tentar me apreender com sua intimidade artificial eu deixarei de cantar e você não vai gostar disso.
Intimidade é um laço feito de um material delicado chamado tempo que deve ser tecido com cuidado para que o resultado final não seja parecido com uma gaiola.
Calma, é o que peço.
Escrevo porque ainda não nos conhecemos – para mim, você é um estranho.
Espero nosso futuro encontro.
Até.


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