Carta a um Coração Partido

fevereiro 22, 2009

Há semanas tenho um corte em meu dedo que não quer sarar. Às vezes ainda sangra e, sempre que encosto em algo, arde e dói. Mas, o pior de tudo é que, sempre que isso acontece, lembro de ti e da tua dor. Da dor que deixei ai contigo.
Foi isso que eu fiz.
Aprendi a ir vivendo e deixando pessoas para trás. Sempre preciso seguir em frente antes que o laço se faça e o nó se ate. Eu sei como é seguir, contudo, nunca soube como é ficar. Não era para ser assim, eu não queria que fosse assim, mas é assim que é. Não estranhe que estas palavras estejam saindo avermelhadas, é que o corte abriu de novo e as gotas de sangue estão se misturando a tinta. Todavia, não posso parar agora; há uma urgência nestas palavras já há muito adiadas. Elas são inevitáveis, como inevitáveis são as minhas partidas.
Sou muito frágil e, por isso, não fico. Já tentei ficar e em pouco tempo só restaram cacos. Precisei me isolar para montar um mosaico com o que restava de mim. Para unir caquinhos foi necessário levantar uma couraça ao redor e é por isso que te pareço insensível.
Repito: sou frágil, muito frágil.
Quero que entendas que não te escrevo um pedido de desculpas. Sei que o que eu fiz não tem perdão. Escrevo-te com a esperança de que possas usar estas palavras como cola caso teu coração tenha se partido quando eu fui embora.
Meu dedo continua doendo, mas ainda prefiro a dor física. Sempre podemos lamber um corte, fazer um curativo, ver a cicatrização, enfim, sempre dá para fazer algo que mantenha a esperança da cura. Entretanto, sentimentos não são palpáveis. Quando machucados nós não vemos os cortes e não há o que fazer. Não há esperança de melhora, por isso esta dor é tão dilacerante.
Espero que me entendas. Não posso fazer mais do que te escrever esta carta e seguir meu triste caminho.
Não aguardo resposta.


Despacho Poético

fevereiro 14, 2009
Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009.

Por ser sexta-feira 13 decidi despachar um poema. Chegando em uma encruzilhada vi uma mulher de branco, um homem com um bode e uma galinha preta. Vi muito de uma certa água que passarinho não bebe, farinha, algumas guloseimas típicas e outras tantas que desconheço por completo. Podre de mim! – que, diante de tantas cores e cheiros, só havia levado papel e caneta.
Minto. Levava também algum vocabulário e muito sentimento.
Tudo pronto, me sentei a espera de um poema. Esperei um pouco, mas meu poema não veio. Talvez, estivesse intimidado com o a opulência dos outros despachos.

Então, resolvi evocar sentimentos, os tantos que trazia comigo, para convencer o meu poema. E assim, fui vivenciando emoções. Chorei, ri, esperneei, vibrei e me abati. Sentei na encruzilhada chateado, quase evocando o sentimento de derrota, quando senti uma melancolia leve, e resolvi curtir esse sentimento que é tão caro a quem ama – e também a quem cria. E não é que, por estarem intimamente ligados, o amor apareceu para fazer companhia a minha melancolia.

Como quem não quer nada o meu poema foi chegando de mansinho e quando vi ele estava ali, pronto, uma oferenda ao meu Orixá.
Meu despacho, digo, poema, ficou assim:

Há muito,
procuro um sentimento que me agrade
e de santo em santo
de quizila em quizila
Fui buscando o que me faltava.
Procurei de um lado e de outro desta encruzilhada
E cada Orixá me ensinou uma parte do caminho…
Mas não houve pai de santo capaz de prever
em que conta meu destino se acertava.
Quem diria!
Sem galinha preta ou cachaça o que eu procurava me veio sem eu perceber.
Só torço para que a macumba tenha sido tão bem feita,
Mas tão bem feita,
que eu nunca mais precise me separar de você,
Amor.


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