A lembrança mais antiga

Foi em uma tarde qualquer de 1948, não sei se importa tanto o quando. Às vezes, penso que a vida é um ciclo interminável de repetições, outras, que é um jogo de azar em um infinito dado de probabilidades do qual nunca conheceremos todos os lados. Nestes momentos, penso que uma vida é muito pouco para que tenhamos uma real dimensão do poder do acaso.
Foi naquela tarde, agora tão distante, que inaugurei minha memória. É a minha lembrança mais antiga, lembrança de imagens, texturas, cheiros, cores e vozes. Antes disso, apenas histórias contadas por pais e tios, histórias que hoje também tem seu lugar no meu carregado baú de recordações.
Lembro as sensações da grama pinicando a pele delicada de criança, da sombra das arvores, da mãe chamando quando o Sol não era mais que um suspiro vermelho. Lembro do cheiro da roseira logo ao lado.
Essas lembranças não vieram assim, fragmentadas, mas vieram todas de uma vez, como uma revelação, um susto, e com o tempo fui colocando em pratica a minha mania de organizar, quebrando aquele breve instante em inúmeros nomes, aprendidos bem mais tarde.
Não sei por que lembro desta tarde, mas sei que esse instante vem toda vez que a vida precisa mudar um pouco.
Hoje, uso ela como lastro, como rumo. Faço isso enquanto o acaso joga dado brincando com a minha vida.

7 respostas para A lembrança mais antiga

  1. Maga querida, muitas vezes me deixo guiar pela sabedoria do acaso…Mas não por acaso vim aqui hoje, adorei sua visita e sinto a mais legítima saudade…Um grande beijo , uma ótima semana! E confie nos dados…rs

  2. Marcos Rocha disse:

    Continuas uma imutável poeta arcade! Na melancolia, na rima natural suave de paz, no sadosismo inquieto… No cheiro de baú velho que tem suas rimas – e isso é tão bom! Continuas uma delicia, poetisa, e continuo me deliciando de ti! beijo!

  3. Moacy Cirne disse:

    Oi, um comentário seu no Antigas Ternuras trouxe-me até aqui. E há uma breve consideração minha sobre o seu poema “Náufragos”, do ano passado. Abraços.

  4. Djabal disse:

    Delicioso o texto. As reminiscências são assim. O mesmo ocorre comigo e andei escrevendo sobre dados ontem. Que coincidência. Acaso também colabora muitas vezes.
    Beijos.

  5. Marco disse:

    Ei, sumida!
    Que bom te reler.
    E este seu post é luxo só. Gostei especialmente do jogo de dados decidindo sua vida. Muuuuito bom.
    Um amigão meu (e ex-professor de faculdade) veio te visitar. Ele é do bem. E o blog dele também. O Moacy escreve muito bem.
    Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

  6. Marcos Rocha disse:

    Ora, se ainda não é a poetisa árcade, mas agora diferente. Sinto algo de angustia existencialista onde eu só via contemplação e lirismo. O que está acontecendo?

    Beijos!

  7. Moacy Cirne disse:

    Oi, o Náufragos acaba de ser postado no Balaio. Abraços.

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