Um recorte da vida

setembro 28, 2008

A vida corre.
A vida corre e eu pareço não ligar. Alheia a um certo mundo comum, fico sabendo das notícias com o atraso de um lugar distante. Por isso, chego a ficar confusa quando, aos sábados, leio o jornal de domingo que traz as noticias de amanhã.
Estou feliz vivendo a avessa do que desejo.
Mais uma vez, bate à porta a necessidade da mudança. Mudanças que, por vezes, desejo grandes, mas que hoje sei que são pequenas, mínimas mudanças para um cotidiano mais apreciado.
Reaprender a apreciar a vida. A vida também pode ser aquilo que apreciamos dela.

Anúncios

Ponto de encontro

setembro 23, 2008

Pegava uma carona para fazer um percurso que atravessa a cidade de Manaus, quando meu interlocutor apontou uma aglomeração de pessoas na rua e disse: “Ou é um acidente ou um ponto de ônibus”. Pensei: pode ser apenas um ponto de encontro. Contudo, guardei para mim tal consideração. Intui que era absurdo falar em encontros hoje em dia, quem dirá um ponto somente para eles.
Conhecemos muita gente, poucas nos tocam. E destes poucos encontros verdadeiros, apenas uma infinitesimal parte se repetirá. A vida tem pouquíssimo tempo para encontros, e praticamente nenhum para reencontros.
É considerado insano haver, no meio de uma cidade grande, um lugar apenas para encontros. Desperdício de espaço. Encontros são desnecessários. Melhor utilizar o local e abrir uma lan house para vender minutos de encontros virtuais. Dá mais dinheiro. Dá mais felicidade? Não sei. Não meço qualidade em minutos. Sei do meu gosto por olhos, abraços e conversas demoradas. Sei do meu gosto por pessoas que despertam saudades e vontade de reencontra-las. Gosto de continuar conversas intermináveis apenas pelo prazer da companhia.
Preciso reaprender a distribuir sorrisos para tornar todas as esquinas da minha vida pontos de encontro.


Ah, as mulheres bíblicas!

setembro 14, 2008

Ah, as mulheres bíblicas. Intrigam-nos sempre. Carnais ou santificadas elas nos trazem descrições que até hoje regem o modo feminino de ser neste lado ocidental do mundo. São redondas, em seus arquétipos, são perfeitas. Nós, mulheres bem reais e contemporâneas, temos mais arestas. As mulheres bíblicas são dos profetas, servem de exemplo. As mulheres contemporâneas são de Chico Buarque, cheias de bossa, servem para a poesia. Mulheres que antes serviam vinhos e maças, hoje, também são servidas, compartilham dos saberes do mundo e dispensam eufemismos para falar de qualquer coisa. As mulheres bíblicas são para serem entendidas, as mulheres modernas são para serem aprendidas. Ah, as mulheres bíblicas, tão lindas no papel; mas nada como uma mulher de carne e osso, destilando perspicácia e beleza bem na tua frente.


Sob a omissão do luar, o amor começa.

setembro 1, 2008

O amor começa o tempo todo, para ele não existe hora ideal. O amor pode começar até mesmo hoje, nesta noite sem luar.

Ela olha seus olhos ainda fechados pela primeira vez e tem certeza de que o ama desde sempre. Ele é seu filho, seu primeiro e, ela ainda não sabe, será o único. Sabe, apenas, que o amará muito, e que o ama ainda mais por saber que até a poucos minutos ele era só dela, e que agora ela terá de o disputar com o mundo. Perderá miseravelmente muitas vezes. Já intui, porém, que a recompensa virá das formas mais inesperadas, e que, afinal, ele a ama também, como nunca amará outra mulher.

Ana e Luiza são irmãs. Vivem brigando, mas, hoje, Ana chegará em casa e verá Luiza chorando. Pela primeira vez conversarão com sinceridade. Irão falar de medos e desejos, sonhos e amigos. Estará quase amanhecendo quando, finalmente, adormecerão de mãos dadas tendo certeza de que uma será, para sempre, o porto seguro da outra.

Sérgio e Natália trabalham no mesmo local. Nunca conversaram. Hoje os dois saíram tarde da fábrica, e se encontraram no ponto de ônibus. Na falta de Lua, a demora do ônibus foi o motivo necessário para o início da conversa. Falaram um com o outro e se sentiram ouvidos como nunca antes. Estavam descobrindo, embora tarde, o que é amar.

Três amores que nasceram como muitos outros, sob a omissão do luar, e que, arduamente, aprenderam que omitir certos sentimentos é letal para o amor.

Espero que aprendam a nunca omitir estas três palavras: eu te amo.

Falar de amor, também é amar.


%d blogueiros gostam disto: