Uma história sem medida

Não tinha muitos gostos e seu único objetivo de vida era não ocupar espaço. Seu próprio corpo já anunciava isso: era pequena e macérrima. Mas, mais do que espaço físico, o que ela não queria ocupar de forma alguma era espaço na vida das pessoas. Desde criança tentava viver uma certa ausência de si mesma para os outros. Sempre quieta, tentava ficar atenta a todos os seus movimentos para que eles não atrapalhassem ninguém.

Sempre quieta, gostava da sombra. Não se mexia muito, mas também não ficava muito tempo parada no mesmo lugar, afinal, não queria marcar território.

Adulta, trabalhava e ganhava o seu sustento: não pesava a ninguém. No trabalho fazia tudo de forma eficiente, mas sem originalidade – não precisava e não queria ser notada.

Não gostava de participar de eventos, mas sempre que era convidada comparecia – sabia que sua ausência podia chamar mais atenção que sua presença. E, para os aniversários, havia criado uma estratégia para dar presentes que não trouxessem sua lembrança por muito tempo: escolhia sempre coisas que fossem consumidas e não deixassem rastros. Assim, para os homens sempre dava um bom vinho, e às mulheres presenteava com flores ou bombons. Variava com as mulheres, porque sempre a mesma coisa poderia tornar-se uma espécie de marca pessoal, e marca pessoal é coisa de gente espaçosa, pensava.

Até que, passou a acontecer algo estranho. Na rua, antigos colegas de escola a paravam para conversar, pessoas que ela jurava que, devido a sua conduta de invisibilidade, nunca poderiam lembrar dela. O pessoal do trabalho também passou a requisitá-la para todo tipo de evento, alguns chegavam a convidava-la para madrinha de casamento e batismo!

Essa situação a angustiava, estava bastante desnorteada e não conseguia compreender como isso era possível – sempre viveu para não ser lembrada e agora, além de lembrada, era homenageada!

Já se passara algum tempo quando um colega começou a desabafar com ela e pelas tantas passou a descreve-lhe os motivos do porque as pessoas lembravam tanto dela. Falou do seu cuidado no trato com os outros, da sua atenção a tudo, de ela ser boa ouvinte e estar sempre aberta para ouvir um desabafo. Falou-lhe dos presentes sempre certeiros, afinal, não havia homem desgostasse de um bom vinho para apreciar em um momento especial, e mulher que não melhorava o humor depois de um chocolate, ou que se inspirasse na beleza de uma flor para ficar, ela também, mais bela. Por isso tudo, pela sua conduta sempre discreta e – pasmem! – amiga, tornou-se querida.

Agora ela tinha que encarar a realidade: ocupava espaço sim, e não era pouco. Todas as suas tentativas de não ser notada transformaram-se em qualidades que a faziam lembrada.

Angustiou-se ainda mais, como viver ocupando tanto espaço?

Era querida, sim, mas não queria ser querida – queria simplesmente não ser.

Agora a vida lhe parecia pesada demais para ser vivida, e a morte exibicionista demais para ser tentada.

Mas a sorte estava a seu lado e, alguns dias depois de tão terrível revelação, foi atropelada e perdeu a memória.

Agora vivia tranqüila: podiam lembrar-se dela, mas ela não lembrava-se de ninguém. Descobriu que a única coisa que ocupa espaço nesta vida é a nossa própria memória.

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9 Responses to Uma história sem medida

  1. pedrita disse:

    oi querida, que bom que está de volta, que pena que por pouco tempo. bejios, pedrita

  2. Djabal disse:

    Pouco tempo, Maga? Como assim?

    Ela descobriu que não ocupava nenhum espaço, tornou-se uma espécie de “alter ego” de todos os outros. Era como um espaço em branco que os demais preenchiam ao seu modo, com o seu tempero, ela aceitava tudo por quietude.
    Temos que torcer para ter um acidente para não nos lembrarmos dos outros? Sim, ou ler o e seu texto; por experiência creio que é o caminho mais extenso. Medo. É um companheiro terrível dessa viagem, não? Bjs.

  3. Marco disse:

    Belo conto, Marcela. Belo mesmo. Parabéns. Você sempre nos surpreendendo com seu talento. Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

  4. Dai :) disse:

    Parabéns amiga!!! 🙂
    Olha o que estive perdendo he, he…
    Impressionante. Que personagem. A memória! Que coisa real e surreal ao mesmo tempo.
    Muito bom mesmo!!!
    Voltarei (saudades)
    Beijos!

  5. Querida _Maga:

    A memória é fogo. A minha é do cão. Arquivo tudo e de tud ome lembro. Isto até minha hidrocefalia aumentar e me tirar do sério. A cirurgia de insersão de um tubo e válvula foi no dia 12 de maio. Espero contorar uma situação chatinha que rolou e visito os blogs que me visitaram nas sombras do sitemeter. Obrigada.

  6. Nossa Maga, muito forte este texto. Foi impossível não me lembrar da pintura de Dali “A memória que persiste”.

    Beijos linda…

  7. Robson disse:

    Voltou em grande estilo.
    Belo texto.
    Beijo.

  8. cleia musilli disse:

    Adorei seu conto…sensível como vc. E tb adorei te encontrar ontem no lançamento da revista.. Lá é que fiquei sabendo que vc vai se mudar pra longe, mas sempre estará por perto..na nossa memória e espero que tb nos e-mails, posts, etc.. Pessoas como vc nos acostumam mal, elas dão a medida da delicadeza e do entusiasmo pela vida e isto, certamente, sempre faz falta. Te desejo toda sorte do mundo em sua nova etapa e que possamos nos encontrar muitas vezes aqui, ali, em qualquer lugar… Um grande beijo.

  9. O mais interessante é que podemos agradar as pessoas com pequenas atitudes e não com extravagância e exageros, texto perfeito. Parabéns.

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