MicrocontosII

Marina Colasanti, escritora e jornalista brasileira, afirmou em uma recente entrevista que são as histórias que determinam qual é o formato que melhor lhes cabe.

Nesse sentido, o formato “microconto” tanto pode concordar quanto discordar com a afirmativa da autora.

Discordância: o formato do microconto não nasceu porque algumas histórias exigiram um novo formato, pelo contrario, um formato foi proposto e a história teria que se encaixar nele.

Concorda: o fato de o formato ter surgido primeiro não quer dizer que não existam histórias que não ficam muito bem nele, como podemos perceber em uma visita ao site A Casa das Mil Portas. Assim, o microconto pode ser encarado como uma nova possibilidade de expressão.

Alias, o próprio site, ao definir o microconto, concorda com esta visão:

“Um microconto é, ao menos na nossa definição, uma história em prosa contada em cinqüenta letras ou menos. Se parece pouco é porque é realmente pouco. Fazer um microconto é um desafio literário, uma tentativa extremamente econômica de contar ou sugerir uma história inteira.”

Particularmente, gosto de ser desafiada pela forma. Considero um ótimo exercício de criatividade, principalmente quando não se está acostumado a inventar histórias. Contudo não acredito que está forma deva ser adotada como única. Longe disso: se a história pedir, ou o desafio chamar, então que seja microconto. Se não for o caso, pode ser um minoconto, um conto, um poema, uma crônica, um romance…

Para encerrar, fui buscar em Jorge Luís Borges uma possível resposta a pergunta que Jonh lançou nos comentários: “Se ler é algo bom, para que escrever tão pouco?”

 

“Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário.” Jorge Luís Borges, Ficções.

 

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9 Responses to MicrocontosII

  1. leolama disse:

    Bem, Marcela, difícil não achar que este negócio de microconto é invencionice, mesmo porque parecem com Hai kus ou kais. Invencionices interessantes, é claro. Implico com o mundo moderno, porque penso que cada vez mais estamos perdendo o sentido de travessia. Tudo é curto e grosso, e mesmo que fino, é rápido. Penso que a beleza de um conto, está em nos fazer atravessar algo, já que um romance seria o atravessar de um “algozão”. Remeto-me a Guimarães Rosa, onde todas as respostas a “nehumas” perguntas vão dar em Travessia. Mas quem pode negar que a obra inteira do Guima é feita de microcontos?

    Um Microconto?

    Sobre a colcha retalhos de coxas.

    Leo Lama.

    Re.: Obrigada pelo seu ótimo comentário, Leo Lama. Eu parto do pressuposto de que tudo é “invencionice” em literatura. Afinal, a própria linguagem é invenção humana. Mas entendo perfeitamente o que você diz. Certas formas de escrita já atingiram certo grau de perfeição entre a expressão e a forma, de tal modo que são a própria experiência de vivenciar a nossa humanidade, por assim dizer. O que me fez “defender” o micro conto é o que me faz defender outras formas de expressão: mais do que a sua forma importa o que ele provoca no leitor (teoria da receptividade). A forma é um meio, importante sim – os formalistas russos que o digam… rs – mas que de nada serve se não atinge ninguém. Sai em sua defesa porque muitos de nós só apoiamos uma idéia depois que ela sai em um cânone. Não consigo acreditar que alguém deixará de escrever um conto ou um romance para escrever micro contos. Até porque o formato esgota logo… (eu acho rs).

    Ah, eu também pensei nisso: qualquer frase com menos de 50 letras poderia ser um micro conto. Mas a definição que o site trás é um bom norte para isso.

    Adorei o seu micro conto. Pirei nele…
    Um abraço

  2. leolama disse:

    Faltou um “n” em “nehumas” e agora? Nenhumas sem o “n” é como o ão sem dono.

    Re.: 😉

  3. Djabal disse:

    Cinqüenta palavras. Microconto. O aspecto de relevância nessa questão é o interesse do leitor. Ele é o senhor da literatura, em última análise. Ela vive dele. Li outro dia que um cidadão vendeu suas histórias para serem “publicadas” em celular. E vendeu milhões de ‘exemplares’. Ler uma história no telefone, é algo inimaginável até então. Não mais.
    A idéia do conto é um pico na veia. O microconto será um soco na rosto, talvez? Já somos estilhaços. As histórias tendem a ser outros espalhados por aí, mas que apenas atingirão interessados. Sou adepto de qualquer técnica que nos ensine a rasgar o véu que nos cerca.
    Ps. Obrigado pela dica da “casa das mil portas”, fantástico.

    Re.: O teu comentário vai ao encontro do que penso, Djabal. Assim como ler no celular não é uma alternativa para todos, um micro conto também pode não ser. Eu gostei de ler e de escrever micro contos. Contudo isso não diminui em nada a minha vontade de ler e escrever outras coisas… Um grande abraço, amigo.

  4. Dai disse:

    Muito boa tua reflexão, amiga Maga! 🙂

    Realmente é possível e fantástico contar uma linda e profunda estória em poucas linhas ou, no meu caso que faço roteiros, fazer de um grande livro ou de uma grande idéia, um filme de 90′ por exemplo.
    Mas e a conclusão?
    Tudo é relativo, depende do tempo disponível. 😉

    Beijosss!

    Re.: É Dai, a questão não é tanto de tempo ou espaço, mas sim de intensidade. Beijos

  5. Serjones disse:

    Cada vez mais as pessoas têm menos tempo e paciência pra ler. Nesse ponto, acho que o microconto funciona bem. Por outro lado, às vezes o microconto pode ser um desperdício de uma puta idéia.

  6. Oi Maga,

    Gosto do desafio. Recentemente participei de um concurso de microcontos. Deveria desenvolver um texto em 100 palavras. Fiquei abismado com o número de participantes: mais de 40.000!!!

    Acho que o microcontos é um desafio e ao mesmo tempo uma isca para que as pessoas desenvolvam o talento que possuem e queiram ir além das 50 ou 100 palavras.

    Beijos!

    Ah! Criei um “meme” e adoraria que você participasse.

  7. JuJu disse:

    Deve ser interessante a experiência do microconto… Será que seria possível Machado de Assis resumir Memórias Póstumas de Brás Cubas em um micro conto? Epa, acho que agora eu viajei…
    Passe lá no meu blog e deixe seu comentário!!!

    Re.: Ainda bem que ele não o fez, né Juju? Um dos livros instigantes e bem construídos da literatura universal não merece ser trocado por um microconto… mas, como ele já foi escrito, ai vai a minha tentativa:
    “Traiu-me? Julguei-a culpada. Escrevo para convencer-me(te). ”
    ps.: ao invés de Memórias Postumas eu fiz um micro conto para Dom Casmurro! rs

  8. Claudinha disse:

    Minina! Eu acho legal todo tipo de texto, microconto . Acho genial escolher bem as poucas palavras que dizem tudo, assim como longos textos bem escritos. Creio ser uma questão de ter a cabeça aberta (a minha é literalmente aberta, hahaha). Eu comecei a me interessar por Hai- Kais depois de ver os seus, que foram tão elogiados pelos nossos amigos. Tentei, acho que não me saí muito bem, mas adorei a idéia. É diferente, é tentador. Um dia vou me arriscar no Microconto, mas vou ter que ler bastante para aprender, sou prolixa…
    Quanto à segunda faculdade, fiz licenciatura em Química. E estou de volta pela terceira vez, fazendo Docência em Ensino Superior. Gosto de estar estudando, motiva, me faz bem.
    Beijos!
    (Vi uma reportagem sobre as farmácias magistrais e imaginei que a exposição que viu tratava disto, que inveja, gostaria de ter ido lá)

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