Carta ao coração de um estranho

Março 10, 2009

Você não me conhece, por isso, vou começar me apresentando. Gosto de sorrir e cantar. Gosto de ver as pessoas próximas a mim sorrindo. Minha alegria é algo fluido e constante, mas não tente prende-la. Minha alegria é natural e selvagem. É como o pássaro silvestre que quando preso perde o canto.
Um dia nós nos encontraremos – eu gosto de conhecer pessoas – serei gentil com você e espero fazê-lo sorrir. Se a conversa fluir, você se sentirá como se estivesse conversando com alguém que conhece há muito tempo – e ficará admirado com isso. Estará à vontade, confortavelmente à vontade, e é ai que as coisas começam a dar errado. Para você é como se me conhecesse há muito tempo, mas, para mim, você continua a ser um desconhecido. Não tente criar uma intimidade que não existe. Não fale dos meus sentimentos como se os conhecesse. Lembre-se do pássaro silvestre. Se tentar me apreender com sua intimidade artificial eu deixarei de cantar e você não vai gostar disso.
Intimidade é um laço feito de um material delicado chamado tempo que deve ser tecido com cuidado para que o resultado final não seja parecido com uma gaiola.
Calma, é o que peço.
Escrevo porque ainda não nos conhecemos – para mim, você é um estranho.
Espero nosso futuro encontro.
Até.


Carta a um Coração Partido

Fevereiro 22, 2009

Há semanas tenho um corte em meu dedo que não quer sarar. Às vezes ainda sangra e, sempre que encosto em algo, arde e dói. Mas, o pior de tudo é que, sempre que isso acontece, lembro de ti e da tua dor. Da dor que deixei ai contigo.
Foi isso que eu fiz.
Aprendi a ir vivendo e deixando pessoas para trás. Sempre preciso seguir em frente antes que o laço se faça e o nó se ate. Eu sei como é seguir, contudo, nunca soube como é ficar. Não era para ser assim, eu não queria que fosse assim, mas é assim que é. Não estranhe que estas palavras estejam saindo avermelhadas, é que o corte abriu de novo e as gostas de sangue estão se misturando a tinta. Todavia, não posso parar agora; há uma urgência nestas palavras já há muito adiadas. Elas são inevitáveis, como inevitáveis são as minhas partidas.
Sou muito frágil e, por isso, não fico. Já tentei ficar e em pouco tempo só restaram cacos. Precisei me isolar para montar um mosaico com o que restava de mim. Para unir caquinhos foi necessário levantar uma couraça ao redor e é por isso que te apreço insensível.
Repito: sou frágil, muito frágil.
Quero que entendas que não te escrevo um pedido de desculpas. Sei que o que eu fiz não tem perdão. Escrevo-te com a esperança de que possas usar estas palavras como cola caso teu coração tenha se partido quando eu fui embora.
Meu dedo continua doendo, mas ainda prefiro a dor física. Sempre podemos lamber um corte, fazer um curativo, ver a cicatrização, enfim, sempre dá para fazer algo que mantenha a esperança da cura. Entretanto, sentimentos não são palpáveis. Quando machucados nós não vemos os cortes e não há o que fazer. Não há esperança de melhora, por isso esta dor é tão dilacerante.
Espero que me entendas. Não posso fazer mais do que te escrever esta carta e seguir meu triste caminho.
Não aguardo resposta.


Carta à nossa irrelevancia

Janeiro 13, 2008
“As idéias simples são em geral aquelas que causam maior impacto e interesse com um menor esforço. De fato, é fácil saber que a vida é curta. É difícil, porém, abarcar a idéia. Hoje mesmo estava falando com Júlia sobre o fato de eu não saber se de fato a poesia concreta foi mais prejudicial que benéfica para a poesia contemporânea (dado o estado da poesia contemporânea). E depois comecei a rir. Porque lembrei deste vídeo com a escala dos planetas e estrelas. Diante disso, o mais alto problema literário se dilui mais humilde que o mais humilde dos grãos de areia. O que dizer de mim, fazendo uma pergunta irrelevante sobre um movimento literário definitivamente irrelevante enquanto calço irrelevantes meias durante uma manhã de domingo?” Alessandro Martins

Essas tuas reflexões sobre irrelevância são legais para que a gente redimensione as nossas preocupações, responsabilidades… ensina a não levar coisas idiotas a sério. Contudo, isso não significa que a nossa vida não tenha importância. Ela é tudo que temos e somos: nós somos a nossa vida. E a vida é o que fazemos dela – ela não tem um sentido pronto. O sentido da vida pode estar em ler a maior quantidade de livros que conseguimos em um ano, pode estar nos beijos que damos ou nas coisas que aprendemos.

É importante fazer algo com a vida. O quê cabe a cada um descobrir. Mas eu tenho um palpite: fazer o bem aos outros e a nós mesmos – ao lugar onde moramos e as pessoas com quem compartilhamos essa vida.

No fim tudo volta ao pó, viramos novamente moléculas prestes a virar outras coisas, outros animais, plantas, pedras, coco…

Por isso, não interessa se a meia é irrelevante, o domingo é irrelevante e a poesia concreta é irrelevante.

Você compartilhou o pensamento com alguém que é relevante pra ti.
O resto é bobagem.

Um abraço


Carta aos corações sensíveis

Dezembro 23, 2007

Ontem eu estava andando pela rua quando parei assustada, chocada, comovida. Tudo isso porque, plantado em meio a uma movimentada rua, havia um jardim, desses poucos que ainda não se escondem atrás de um muro alto. Estava lá, integro e belo, convidando-nos a parar para admirá-lo. É apenas um jardim, não tem consciência do mundo que suas folhas oferecem a nós. Um mundo de sensações – cores, cheiros, texturas e beleza. Um mundo de sentimentos: ternura, paz, saudade… Então, lembrei-me de ti e deste teu coração que parece um desses jardinzinhos perdidos em um mundo de concreto. Esse teu coração que ainda é capaz de se enternecer com coisas miúdas. Coração que fica pleno de ternura ao ser recebido com um sorriso, ao ver os primeiros pingos da chuva ou os últimos suspiros do Sol no horizonte da tarde; ao topar, na rua, com um casal de namorados rindo da mais pura felicidade… Lembrei de como tem desprendimento em teu sorriso e de como é aconchegante o teu abraço. Lembrei da facilidade com que aceitas e lidas com as diferenças; da falta de pudor com que choras nos momentos em que a tristeza invade teu coração; da coragem com que entregas teu coração para ensinar o outro a cuidar do seu próprio e da tua habilidade em fazer isso com tanto amor que logo soma ao teu outro coração sensível.
Teu coração é como um desses jardinzinhos que parecem estar no lugar errado: comovem ao emprestar beleza e sentido à vida.


Carta aos corações embrutecidos

Novembro 11, 2007

 

“Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com os instantes vividos. Falo daqueles especiais, quando o tempo pára e a vida suspensa parece um céu estrelado, como a paz de um longo beijo. Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com as palavras doces, as frases de entrega, a felicidade espontânea, o afeto que ilumina.”
Célia Musilli

 

Há quanto tempo não sabes o que é viver um instante? Há quanto tempo simplesmente ignoras os instantes?

Eu sei, eu sei: já te entregastes em algum momento do passado com todo amor e delicadeza que havia em tua alma e destes derradeiros momentos de entrega guardas grandes cicatrizes que, às vezes, ainda doem. Nestes momentos de dor, lágrimas sinceras escorrem pelo teu rosto e descobres que ainda és capaz de chorar, mas as lágrimas que reinauguram os teus olhos ressequidos estão presas ao passado e a dor.

Sim, presas ao passado, pois, além das cicatrizes, trazes também o coração envolto em uma camada do mais duro diamante, carinho nenhum passa por este escudo de tristezas.

E é isto que fazes com os instantes vividos: os transforma em uma capa de insensibilidade, usas para esterilizar os sentimentos embrutecer o coração.

E, para não correr o risco de o diamante se quebrar, foges dos abraços, desmanchando laços antes que eles se estreitem, ficas surdo frente às palavras doces e os momentos de entrega só existem para a angustia.

Segues em um não sentir, ignorando o presente e arrastando pela vida o peso da tristeza. Acabas com os instantes para não vivê-los, transformando a existência em um bloco compacto de desespero. Por medo de sofrer, faz um pacto com o sofrimento escolhendo alimentar-se dele em intermináveis doses homeopáticas.

Com os instantes vividos fazes teu coração de pedra.