à Houdon

Junho 16, 2009

Quero um sono belo

tão belo quanto o Morpheu de Houdon pode proporcionar a um mortal tocando-o com suas papoulas…

Indo embora com suas asas de marmore

Deixando-me a sonhar um sonho de museu francês.


Você vem sempre duas vezes por dia

Maio 12, 2009

Você vem sempre duas vezes por dia.

Na primeira começa pequena e escura, anunciada pelo canto dos galos e pelo alvoroço dos passarinhos, sozinha, você chega límpida e para poucos.

Na segunda começa grandiosa, embalada por um tumulto de carros e buzinas e vai se consumindo até desaparecer na escuridão. É para muitos, para todos, suja, poluída. Contudo, entre tantos poucos a amam – quase ninguém sabe de você.

Você é bela, esplendida, é revelação e encantamento. É a melhor hora do dia; seus momentos são os mais esperados e sublimes.

No mar, na floresta, nos pampas, na avenida de um grande centro, é única, minha sempre doce e bela, Aurora.


Zingiber officinalis

Março 15, 2009
* Este texto faz parte da série “Os muitos nomes do gengibre”.

Nesta época eu estava envolvido com um projeto que estudava algumas plantas aromáticas comuns no Brasil, e também estava ocupado com alguns artigos mais antigos que falavam sobre plantas medicinais e dois grupos de estudos sobre… sobre o quê mesmo? Não lembro, só sei que os adorava, não tanto pelos artigos discutidos, mas porque no fim sempre acabávamos discutindo futebol ou falando mal de algum professor. (Nota: fazer projeto para estudar variedades de grama para gramado de futebol.) Enfim, estava imerso na rotina de um estudante de pós-graduação em biologia.
Parece incrível, mas eu gostava do que fazia. Ainda gosto. Ficava, todos os dias, pesquisando depois que a maioria dos funcionários já havia se retirado. Digo funcionários, porque sempre ficava uma dúzia de pesquisadores por lá. Fazer pesquisa e ficar depois do expediente são quase sinônimos. Nestes momentos, ficávamos cada um em seu canto, concentrados em seus estudos, sem aquele burburinho do dia. Mal trocávamos palavras. Quando muito, nós nos esbarrávamos na cafeteira – não sei pra que estudar tantos chás se no final sempre tomamos a mesma coisa.
Naquele dia sai do Laboratório um pouco mais cedo que o habitual e fazia o percurso entre o ponto de ônibus e a minha casa distraído, como sempre, quando fui arrebatado por um cheiro. Parei onde estava, tentando distinguir que cheiro era aquele e de onde vinha. Fiquei assim por alguns minutos, até perceber que aquele cheiro forte, agridoce, vinha de uma casinha antiga, cercada por arbustos e com um portão baixo. Nunca tinha prestado atenção naquela casa, mas sabia que ela estava ali desde sempre.
Fui embora com aquele cheiro penetrante embalando meus pensamentos. Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar de que planta vinha aquele aroma tão marcante.
Por alguns dias a cena se repetiu.
Certa noite tomei coragem e resolvi bater à porta. Uma senhorinha, tão branquinha que parecia um algodãozinho com seus setenta e tantos anos,  abriu a porta com um sorriso meigo e um olhar inquisidor. Cumprimentei-a e expliquei que há dias passava pela frente da casa e sentia um cheiro que não conseguia distinguir, perguntei se ela podia me dizer qual era. A senhora me convidou a sentar na cadeira da varanda e apreciar um chá, de onde vinha o cheiro que eu estava sentindo.
O bom-senso já havia me abandonado por completo quando me vi sentando na varanda da senhora prestes a saborear aquele intrigante chá.
O gosto forte e adocicado tomou conta da minha língua, e o vapor penetrava pelo meu nariz quando de minha boca escapuliu a palavra tão procurada:  Zingiber officinalis.
A senhorinha me olhou intrigada, quando expliquei que aquele era o nome do chá. Ela, agora, me olhava um olhar complacente e, com paciência, me dizia que eu estava enganado, que aquele chá era de gengibre e que ela vinha o tomando há alguns dias para curar uma rouquidão de gripe.
Desta forma simples aquela senhora me disse algo que tomou dezenas de páginas da minha dissertação.
Enquanto terminava de apreciar o chá, conversamos sobre banalidades e o sabor do gengibre me fazia pensar no quando fazia falta esta vivência das ruas.


Carta ao coração de um estranho

Março 10, 2009

Você não me conhece, por isso, vou começar me apresentando. Gosto de sorrir e cantar. Gosto de ver as pessoas próximas a mim sorrindo. Minha alegria é algo fluido e constante, mas não tente prende-la. Minha alegria é natural e selvagem. É como o pássaro silvestre que quando preso perde o canto.
Um dia nós nos encontraremos – eu gosto de conhecer pessoas – serei gentil com você e espero fazê-lo sorrir. Se a conversa fluir, você se sentirá como se estivesse conversando com alguém que conhece há muito tempo – e ficará admirado com isso. Estará à vontade, confortavelmente à vontade, e é ai que as coisas começam a dar errado. Para você é como se me conhecesse há muito tempo, mas, para mim, você continua a ser um desconhecido. Não tente criar uma intimidade que não existe. Não fale dos meus sentimentos como se os conhecesse. Lembre-se do pássaro silvestre. Se tentar me apreender com sua intimidade artificial eu deixarei de cantar e você não vai gostar disso.
Intimidade é um laço feito de um material delicado chamado tempo que deve ser tecido com cuidado para que o resultado final não seja parecido com uma gaiola.
Calma, é o que peço.
Escrevo porque ainda não nos conhecemos – para mim, você é um estranho.
Espero nosso futuro encontro.
Até.


Despacho Poético

Fevereiro 14, 2009
Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009.

Por ser sexta-feira 13 decidi despachar um poema. Chegando em uma encruzilhada vi uma mulher de branco, um homem com um bode e uma galinha preta. Vi muito de uma certa água que passarinho não bebe, farinha, algumas guloseimas típicas e outras tantas que desconheço por completo. Podre de mim! – que, diante de tantas cores e cheiros, só havia levado papel e caneta.
Minto. Levava também algum vocabulário e muito sentimento.
Tudo pronto, me sentei a espera de um poema. Esperei um pouco, mas meu poema não veio. Talvez, estivesse intimidado com o a opulência dos outros despachos.

Então, resolvi evocar sentimentos, os tantos que trazia comigo, para convencer o meu poema. E assim, fui vivenciando emoções. Chorei, ri, esperneei, vibrei e me abati. Sentei na encruzilhada chateado, quase evocando o sentimento de derrota, quando senti uma melancolia leve, e resolvi curtir esse sentimento que é tão caro a quem ama – e também a quem cria. E não é que, por estarem intimamente ligados, o amor apareceu para fazer companhia a minha melancolia.

Como quem não quer nada o meu poema foi chegando de mansinho e quando vi ele estava ali, pronto, uma oferenda ao meu Orixá.
Meu despacho, digo, poema, ficou assim:

Há muito,
procuro um sentimento que me agrade
e de santo em santo
de quizila em quizila
Fui buscando o que me faltava.
Procurei de um lado e de outro desta encruzilhada
E cada Orixá me ensinou uma parte do caminho…
Mas não houve pai de santo capaz de prever
em que conta meu destino se acertava.
Quem diria!
Sem galinha preta ou cachaça o que eu procurava me veio sem eu perceber.
Só torço para que a macumba tenha sido tão bem feita,
Mas tão bem feita,
que eu nunca mais precise me separar de você,
Amor.


Língua Afiada

Janeiro 25, 2009

Bom gosto
Boas escolhas
Belas Letras
Não estou falando de caligrafia.
Mas poderia.

História
Escolhas
Livre-Arbítrio
Definição para Livre-Arbítrio:
Vontade adolescente de querer mandar em si mesmo.

Caneta
Grafite
Papel
A força não está no material
Está no que (des)construímos com ele.

Inodoro
Incolor
Insípida
Assim é a água, para o todo dia do dia todo.
Não preciso mais do que isso para descobrir o que quero
E criar o que posso.


A lembrança mais antiga

Janeiro 18, 2009

Foi em uma tarde qualquer de 1948, não sei se importa tanto o quando. Às vezes, penso que a vida é um ciclo interminável de repetições, outras, que é um jogo de azar em um infinito dado de probabilidades do qual nunca conheceremos todos os lados. Nestes momentos, penso que uma vida é muito pouco para que tenhamos uma real dimensão do poder do acaso.
Foi naquela tarde, agora tão distante, que inaugurei minha memória. É a minha lembrança mais antiga, lembrança de imagens, texturas, cheiros, cores e vozes. Antes disso, apenas histórias contadas por pais e tios, histórias que hoje também tem seu lugar no meu carregado baú de recordações.
Lembro as sensações da grama pinicando a pele delicada de criança, da sombra das arvores, da mãe chamando quando o Sol não era mais que um suspiro vermelho. Lembro do cheiro da roseira logo ao lado.
Essas lembranças não vieram assim, fragmentadas, mas vieram todas de uma vez, como uma revelação, um susto, e com o tempo fui colocando em pratica a minha mania de organizar, quebrando aquele breve instante em inúmeros nomes, aprendidos bem mais tarde.
Não sei por que lembro desta tarde, mas sei que esse instante vem toda vez que a vida precisa mudar um pouco.
Hoje, uso ela como lastro, como rumo. Faço isso enquanto o acaso joga dado brincando com a minha vida.


Microcontos VI

Janeiro 9, 2009

Deitada não pensava na vida. A morte chegou primeiro.

Nunca ouviu mais nada depois de ouvir “eu te amo”.

Felicidade era Elvis cantando Blue Moon… no seu ouvido.

No silêncio, imaginava palavras belas – ele era melhor mudo.


2009, Avó e a mesma pergunta sobre a vida

Janeiro 3, 2009

2009 começou de um jeito nostálgico como já a muitos anos começa. Não pelo ano que se encerra, mas por estar na casa da minha Avô, revendo tanta gente, ouvindo tantas vozes familiares, comendo sabores de outro tempo.
Se tem alguém que me emociona, esse alguém é a minha avó. Uma verdadeira matriarca com seus mais de oitenta anos, com voz ativa nas questões da família e da casa. Casa aliás, que é um verdadeiro caldeirão de sentimentos controversos, onde acabo aprendendo um pouco mais sobre humildade e tolerância. Um lugar onde recarrego as energias e reflito um pouco sobre a vida para recomeçar cada ano.
Começo 2009 em um diálogo eterno, olhando para a minha avó, essa mulher que tanto amo e admiro, fazendo para mim mesma a pergunta que gostaria de fazer para ela: após viver tanto tempo o que ela pode ensinar sobre o sentido da vida?


Onde mora o teu Papai Noel?

Dezembro 21, 2008

O meu Papai Noel mora no inesperado, nas coincidências bem-vindas do acaso.
Meu Papai Noel mora naquilo com o que não me preocupo, mas que mesmo assim está lá trabalhando, construindo, como se fosse um molde de meus atos – dependendo deles, os meus presentes podem ser bons, ruins, interessantes, sem sabor, intensos, coloridos… enfim, constantes: sempre são surpreendentes.
Meu Papai Noel mora na carta já esquecida que encontro perdida em alguma gaveta, no amigo genial que conheci na fila do supermercado, no livro mais querido que, sem procurar, encontrei no canto empoeirado da livraria, da carona bem na hora da chuva, da piada no dia chato, na poesia que veio a boca sem querer quando uma palavra pouco usada me acertou a queima-roupa…
Meu Papai Noel aparece sempre que o telefone toca com uma noticia boa, com o abraço apertado logo pela manhã, com a música mais linda que toca bem na hora em que liguei o rádio…
Meu Papai Noel mora no inesperado.