Eu gostava de desenhar
gatos.
Não sei mais desenhar
gatos.
Onde foram parar os
gatos
inspiradores
do passado?
De tanto
tentar
apreende-los
Eles,
os gatos,
comeram
o meu traço.
Eu gostava de desenhar
gatos.
Não sei mais desenhar
gatos.
Onde foram parar os
gatos
inspiradores
do passado?
De tanto
tentar
apreende-los
Eles,
os gatos,
comeram
o meu traço.
Presente!
Se é a vida quem chama, eu sempre respondo: presente!
Agora, já, já, já!
Presente é um eterno ser.
Um eterno fazer-se.
FAZER-SE PRESENTE
Presentei-se: sinta, plenamente, o instante que é.
Por que será que os únicos momentos que parecemos sentir plenamente são os de dor, de angustia?
Por que os momentos felizes perdem-se na ansiedade do porvir ou na rememoração do passado?
Deixe o presente acontecer
Sinta o presente acontecer.
Sinta.
O agora é um momento para se viver.
“Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com os instantes vividos. Falo daqueles especiais, quando o tempo pára e a vida suspensa parece um céu estrelado, como a paz de um longo beijo. Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com as palavras doces, as frases de entrega, a felicidade espontânea, o afeto que ilumina.”
Célia Musilli
Há quanto tempo não sabes o que é viver um instante? Há quanto tempo simplesmente ignoras os instantes?
Eu sei, eu sei: já te entregastes em algum momento do passado com todo amor e delicadeza que havia em tua alma e destes derradeiros momentos de entrega guardas grandes cicatrizes que, às vezes, ainda doem. Nestes momentos de dor, lágrimas sinceras escorrem pelo teu rosto e descobres que ainda és capaz de chorar, mas as lágrimas que reinauguram os teus olhos ressequidos estão presas ao passado e a dor.
Sim, presas ao passado, pois, além das cicatrizes, trazes também o coração envolto em uma camada do mais duro diamante, carinho nenhum passa por este escudo de tristezas.
E é isto que fazes com os instantes vividos: os transforma em uma capa de insensibilidade, usas para esterilizar os sentimentos embrutecer o coração.
E, para não correr o risco de o diamante se quebrar, foges dos abraços, desmanchando laços antes que eles se estreitem, ficas surdo frente às palavras doces e os momentos de entrega só existem para a angustia.
Segues em um não sentir, ignorando o presente e arrastando pela vida o peso da tristeza. Acabas com os instantes para não vivê-los, transformando a existência em um bloco compacto de desespero. Por medo de sofrer, faz um pacto com o sofrimento escolhendo alimentar-se dele em intermináveis doses homeopáticas.
Com os instantes vividos fazes teu coração de pedra.
Sim,
Sou cantora.
Cantora Amadora.
Mais amadora que cantora,
Mais amadora que amada.
Sou a nota, sou o tom
Sou a partitura não tocada:
pura potência.
Sou o ritmo
para aquilo que não tem tempo.
Sou dissonante, atonal
um melancólico allegro.
Sou emoção
(harmonia?)
entrando pelos seus ouvidos.