Uma história sem medida

Maio 11, 2008

Não tinha muitos gostos e seu único objetivo de vida era não ocupar espaço. Seu próprio corpo já anunciava isso: era pequena e macérrima. Mas, mais do que espaço físico, o que ela não queria ocupar de forma alguma era espaço na vida das pessoas. Desde criança tentava viver uma certa ausência de si mesma para os outros. Sempre quieta, tentava ficar atenta a todos os seus movimentos para que eles não atrapalhassem ninguém.

Sempre quieta, gostava da sombra. Não se mexia muito, mas também não ficava muito tempo parada no mesmo lugar, afinal, não queria marcar território.

Adulta, trabalhava e ganhava o seu sustento: não pesava a ninguém. No trabalho fazia tudo de forma eficiente, mas sem originalidade - não precisava e não queria ser notada.

Não gostava de participar de eventos, mas sempre que era convidada comparecia - sabia que sua ausência podia chamar mais atenção que sua presença. E, para os aniversários, havia criado uma estratégia para dar presentes que não trouxessem sua lembrança por muito tempo: escolhia sempre coisas que fossem consumidas e não deixassem rastros. Assim, para os homens sempre dava um bom vinho, e às mulheres presenteava com flores ou bombons. Variava com as mulheres, porque sempre a mesma coisa poderia tornar-se uma espécie de marca pessoal, e marca pessoal é coisa de gente espaçosa, pensava.

Até que, passou a acontecer algo estranho. Na rua, antigos colegas de escola a paravam para conversar, pessoas que ela jurava que, devido a sua conduta de invisibilidade, nunca poderiam lembrar dela. O pessoal do trabalho também passou a requisitá-la para todo tipo de evento, alguns chegavam a convidava-la para madrinha de casamento e batismo!

Essa situação a angustiava, estava bastante desnorteada e não conseguia compreender como isso era possível – sempre viveu para não ser lembrada e agora, além de lembrada, era homenageada!

Já se passara algum tempo quando um colega começou a desabafar com ela e pelas tantas passou a descreve-lhe os motivos do porque as pessoas lembravam tanto dela. Falou do seu cuidado no trato com os outros, da sua atenção a tudo, de ela ser boa ouvinte e estar sempre aberta para ouvir um desabafo. Falou-lhe dos presentes sempre certeiros, afinal, não havia homem desgostasse de um bom vinho para apreciar em um momento especial, e mulher que não melhorava o humor depois de um chocolate, ou que se inspirasse na beleza de uma flor para ficar, ela também, mais bela. Por isso tudo, pela sua conduta sempre discreta e – pasmem! - amiga, tornou-se querida.

Agora ela tinha que encarar a realidade: ocupava espaço sim, e não era pouco. Todas as suas tentativas de não ser notada transformaram-se em qualidades que a faziam lembrada.

Angustiou-se ainda mais, como viver ocupando tanto espaço?

Era querida, sim, mas não queria ser querida - queria simplesmente não ser.

Agora a vida lhe parecia pesada demais para ser vivida, e a morte exibicionista demais para ser tentada.

Mas a sorte estava a seu lado e, alguns dias depois de tão terrível revelação, foi atropelada e perdeu a memória.

Agora vivia tranqüila: podiam lembrar-se dela, mas ela não lembrava-se de ninguém. Descobriu que a única coisa que ocupa espaço nesta vida é a nossa própria memória.


Escrever ou Das coisas difíceis

Maio 4, 2008

Dia desses, eu estava fazendo um curso e meus colegas reclamavam das aulas de redação. As consideravam desnecessárias, afinal, quem ali não sabia escrever, não é mesmo?
Fui voto vencido. Eu acho escrever difícil. Aliás, eu acho que tudo nesta vida é difícil, até o dia em que se torna fácil. Eu acho isso, você sabe disso.
As coisas só se tornam fáceis quando passamos a realizá-las. Para quem nunca escreve, escrever pode ser a coisa mais fácil ou mais difícil do mundo. Não importa. Se ela nunca escreve o que ela pensa sobre o assunto é apenas um conceito abstrato - um pré-conceito sobre algo. Para tornar algo fácil, só fazendo. Se tivermos uma orientação adequada pode ser que a gente nunca sinta dificuldade para realizar aquela atividade.
Difícil ou fácil, faça. É o meu conselho.
Quanto as aulas de redação, elas foram pouquíssimas, insuficientes para mudar a minha idéia sobre a dificuldade do ato de escrever.
Uma pena.
Difícil ou fácil, vou continuar tentando, quem sabe um dia não acerto?


Fragmentos do cotidiano

Abril 28, 2008

- E ai, tudo bem?

- Tudo… quer dizer, eu não estou legal…

- O que aconteceu?

- Ah… eu queria sair hoje, mas não rolou…

- Por isso é bom sempre ter um plano B…

- Você tem um plano B?

- Não… na verdade, não tenho nem um plano A. Alias, o dia que tiver um plano A terei até um plano Z”… Enquanto isso improviso na vida, como no Jazz.


Microcontos IV

Fevereiro 20, 2008

* Já nascera velho. Ao invés de chorar, pediu um charuto.

* No banheiro, solitária, reside uma escova de dentes.

* Em um surto de coragem, morreu de medo - a arma estava trancada.

Mais microcontos aqui e aqui. Sobre microcontos aqui.  


Tenho as mãos frias - e ainda nem morri.

Janeiro 27, 2008

Tenho as mãos frias e ainda nem morri.
Ando pelas ruas vestida com um casaco preto em pleno verão. Mesmo de olhos fechados posso sentir, pelo tremelicar da calçada, a velocidade dos carros. Vejo uma mulher varrendo e seu movimento me hipnotiza. Poucos pássaros atravessam meu caminho: neste horário eles vão se alimentar em lugares mais generosos. Presto muita atenção ao que se passa ao meu redor, pois dentro de mim não passa nada - tenho o coração vazio.
É janeiro e a cidade está toda florida, bela, como se fosse primavera. Entre as pétalas, há um filhote de passarinho caído e eu pego para aquecê-lo.
Inútil - tenho as mãos frias.


Das Sinopses

Janeiro 21, 2008

Tenho um costume, digamos, peculiar: evito ler sinopses de filmes, livros e peças que quero ver. Normalmente, elas contam detalhes importantes da história tirando boa parte do prazer que seria provocado pela surpresa. Em geral, quando sabemos de algumas partes da história, a surpresa acaba sendo substituída por uma certa ansiedade em saber “quando é que tal coisa vai acontecer, afinal?”. Não parece uma troca vantajosa.

Eu sei que um bom livro é bom não apenas pela sua história, mas pelo modo como ela é construída. De toda forma, continuo a considerar importante o “fator surpresa”.

Um filme delicioso é mais divertido quando somos ingênuos na história.

 

Talvez aconteça o mesmo na vida: ela só se torna realmente interessante quando somos ingênuos na história…


Carta à nossa irrelevancia

Janeiro 13, 2008
“As idéias simples são em geral aquelas que causam maior impacto e interesse com um menor esforço. De fato, é fácil saber que a vida é curta. É difícil, porém, abarcar a idéia. Hoje mesmo estava falando com Júlia sobre o fato de eu não saber se de fato a poesia concreta foi mais prejudicial que benéfica para a poesia contemporânea (dado o estado da poesia contemporânea). E depois comecei a rir. Porque lembrei deste vídeo com a escala dos planetas e estrelas. Diante disso, o mais alto problema literário se dilui mais humilde que o mais humilde dos grãos de areia. O que dizer de mim, fazendo uma pergunta irrelevante sobre um movimento literário definitivamente irrelevante enquanto calço irrelevantes meias durante uma manhã de domingo?” Alessandro Martins

Essas tuas reflexões sobre irrelevância são legais para que a gente redimensione as nossas preocupações, responsabilidades… ensina a não levar coisas idiotas a sério. Contudo, isso não significa que a nossa vida não tenha importância. Ela é tudo que temos e somos: nós somos a nossa vida. E a vida é o que fazemos dela - ela não tem um sentido pronto. O sentido da vida pode estar em ler a maior quantidade de livros que conseguimos em um ano, pode estar nos beijos que damos ou nas coisas que aprendemos.

É importante fazer algo com a vida. O quê cabe a cada um descobrir. Mas eu tenho um palpite: fazer o bem aos outros e a nós mesmos - ao lugar onde moramos e as pessoas com quem compartilhamos essa vida.

No fim tudo volta ao pó, viramos novamente moléculas prestes a virar outras coisas, outros animais, plantas, pedras, coco…

Por isso, não interessa se a meia é irrelevante, o domingo é irrelevante e a poesia concreta é irrelevante.

Você compartilhou o pensamento com alguém que é relevante pra ti.
O resto é bobagem.

Um abraço


Resolução de Ano Novo

Janeiro 6, 2008

Doem-me todas as coisas que não fiz.

Doem mais as coisas que deixei de fazer por medo.

Sou medrosa. Mas não é que o medo seja algo natural, intrínseco a minha personalidade. Não é, também, que eu seja naturalmente corajosa. Sou é distraída. E desta distração vem uma calma que me encoraja a fazer coisas que só mesmo os desavisados - ou os muito corajosos - são capazes de fazer.

E esse meu medo, de onde vêm? Vem do saber sempre pelo pior lado. Vem do pessimismo alheio, do desincentivo recebido toda vez que conto um sonho. Daí vem o meu medo.

Por outro lado, lembro com carinho de todas as vezes em que ouvi um “tente”, “você consegue”, “experimente”… E se me doem todas as coisas que deixei de fazer por medo, me alegram todas as vezes em que tentei.

 

Por tudo isso, essa é a minha resolução de ano novo:

 

Aprenderei a dizer mais vezes: tente!

 

“É difícil”, “não dá”, “impossível”…

sim, há momento em que estas palavras são necessárias.

Contudo, são a minoria

 

Aprender a dizer mais vezes: vá em frente!

 

Parar de impor barreiras inexistentes

Desistir por medos imaginários

Ser o incentivo, não o abismo

 

Redefinirei palavras como impossível,

Buscarei o Possível, tornando-o nosso vizinho mais próximo.

 

De hoje em diante,

meus ouvidos se tornaram moucos para aqueles que só sabem reclamar

De hoje em diante

multiplicarei as palavras positivas que saem da minha boca…

 

Que de 2008 em diante todos os anos sejam O Ano das Possibilidades.


Carta aos corações sensíveis

Dezembro 23, 2007

Ontem eu estava andando pela rua quando parei assustada, chocada, comovida. Tudo isso porque, plantado em meio a uma movimentada rua, havia um jardim, desses poucos que ainda não se escondem atrás de um muro alto. Estava lá, integro e belo, convidando-nos a parar para admirá-lo. É apenas um jardim, não tem consciência do mundo que suas folhas oferecem a nós. Um mundo de sensações - cores, cheiros, texturas e beleza. Um mundo de sentimentos: ternura, paz, saudade… Então, lembrei-me de ti e deste teu coração que parece um desses jardinzinhos perdidos em um mundo de concreto. Esse teu coração que ainda é capaz de se enternecer com coisas miúdas. Coração que fica pleno de ternura ao ser recebido com um sorriso, ao ver os primeiros pingos da chuva ou os últimos suspiros do Sol no horizonte da tarde; ao topar, na rua, com um casal de namorados rindo da mais pura felicidade… Lembrei de como tem desprendimento em teu sorriso e de como é aconchegante o teu abraço. Lembrei da facilidade com que aceitas e lidas com as diferenças; da falta de pudor com que choras nos momentos em que a tristeza invade teu coração; da coragem com que entregas teu coração para ensinar o outro a cuidar do seu próprio e da tua habilidade em fazer isso com tanto amor que logo soma ao teu outro coração sensível.
Teu coração é como um desses jardinzinhos que parecem estar no lugar errado: comovem ao emprestar beleza e sentido à vida.


Igualzito ao pai*

Dezembro 18, 2007

Ao longo dos anos

tenho descoberto em mim

heranças de meu pai:

 

Essa calma de quem simplesmente aceita

Uma boa dose de paciência

Esse gosto pela conversa…

Isso é herança de meu pai

 

Uma curiosidade infantil

O amor pela ciência e pela história

Essa cara de menina

Esse jeito de menina-madura…

Isso é herança de meu pai

 

Essa necessidade de se comunicar

A vontade de estar sempre fazendo algo

Uma espécie de organização-desorganizada

A mania de tocar vários projetos ao mesmo tempo…

Isso é herança de meu pai

 

O gosto pelo conhecimento

O prazer em viajar

O jeito carinhoso…

Isso também é herança de meu pai

 

Por tudo isso que há em mim,

defeitos e qualidades,

agradeço ao meu pai.

Agradeço-o, em especial, por ter

me ensinado a sonhar.

 

Mas, agradeço mais ainda a minha mãe

por ter mantido os meus pés no chão.

 

 

* O titulo é uma referência a uma música chamada Guri (autoria de João Batista Machado e Júlio Machado) que meu pai cantava para mim ao violão e que marcou muito a minha infancia