Brasília decolando

Junho 28, 2009

Já pousei e decolei várias vezes em Brasília e, em todas, não me furto a tentar divisar, pela janela da aeronave, o formato de avião que lhe deu Lucio Costa – mesmo que este preferisse que a cidade tivesse contornos de borboleta. Obviamente, não consigo adivinhar nesta profusão de nuvens e prédios o seu formato original e fico pensando se existiria um ângulo apropriado para isso. Sempre me convenço de que o plano piloto se perdeu e, então, me ponho a imaginar em que prédio, esquina ou cornubação isso teria acontecido. Às vezes sonho que o avião “Brasília” levantou vôo levando o Brasil no bagageiro e ninguém notou quando ou como – em uma provável decolagem não autorizada e sem plano de vôo.


à Houdon

Junho 16, 2009

Quero um sono belo

tão belo quanto o Morpheu de Houdon pode proporcionar a um mortal tocando-o com suas papoulas…

Indo embora com suas asas de marmore

Deixando-me a sonhar um sonho de museu francês.


Tenho 25 anos e nunca comemorei um Dia dos Namorados

Junho 8, 2009

Tenho 25 anos e nunca comemorei um Dia dos Namorados. Essa afirmativa é verdadeira. Talvez seja o tipo de verdade que, quando dita, choque um pouco.
Eu tenho 25 anos, nunca comemorei um dia dos namorados e não consigo me importar com isso – e talvez por isso choque ainda mais, principalmente aqueles que, também solteiros, já estão preparando o estoque de lenço e chocolate para a inevitável data.
Para mim a data é mais uma no nosso já recheado calendário. E olha que já fiz um bocado de coisas que talvez fossem impensáveis aos solteiros de plantão que só esperam uma justificativa qualquer para reclamar da solidão. Já ajudei à amigas arrumarem os presentes dos namorados, ficando algumas horas cortando, colando, empacotando… Já declamei um bom trecho do conhecido conto Ter ou não ter namorado, do Atur da Távola, na sala de aula a pedido de uma professora. Aliás, se pudesse faria coisas assim sempre. Adoraria me juntar a um grupo de trovadores e sair por ai cantando e declamando, espalhando amor pelas ruas todos os dias do ano. Gostaria de, com um pouco de arte, tirar sorrisos das pessoas, deixa-las menos defensivas e mais abertas para a vida e suas possibilidades.
Sou extremamente romântica, daquele romantismo que acredita em uma vida melhor, com mais abraços e menos saudades, com mais compaixão e menos preconceitos. Por isso, gostaria que o Dia dos Namorados tivesse uma conotação diferente. Ao invés de ser uma data em que os solteiros ficam tristes por não terem companhia e os enamorados angustiados com a escolha do presente mais adequado para não perder o seu amor, gostaria que esta fosse uma data em que se buscasse compartilhar mais carinho e afeto com todos que estão seu ao redor – independente da propaganda dos shoppings centers.

Tenho 25 anos e nunca comemorei um Dia dos Namorados da forma como se espera que ele seja comemorado. Gostaria que mais pessoas pudessem comemorá-lo independente de estarem ou não namorando.
Um feliz amor para todos.


Seja mais feliz: dançe!

Maio 31, 2009

Todos deveriam dançar.
Deveriam ouvir mais música, assistir a mais apresentações de dança, deixar envolver-se pela música, embalar-se pelo som, pelo ritmo, pelo desejo do corpo.
“Dance sem saber dançar”, diz a música. Dançar prescinde de saberes. Dançar é libido, é respiração, é leveza.
“Dance como se ninguém estivesse olhando” diz, sabiamente, a camiseta de um passante. Dance quando ninguém estiver dançando. Incite alguém a dançar; invente um passo fácil e espalhe alegria por ai.
Dance para explorar todas as possibilidades do seu corpo. Dance como quem conta uma história com os braços, com os pés, com os cabelos. Dance como quem se liberta. Dance para celebrar a alegria de estar vivo. Dance para ser mais feliz.


Relógio bonito para horas imaginárias

Maio 25, 2009

Comprei um belo relógio
e o pendurei na parede
Sem as pilhas, é claro,
pois seu tic-tac não me serve de nada
É apenas uma medida inútil do irrefreável
tempo.


Você vem sempre duas vezes por dia

Maio 12, 2009

Você vem sempre duas vezes por dia.

Na primeira começa pequena e escura, anunciada pelo canto dos galos e pelo alvoroço dos passarinhos, sozinha, você chega límpida e para poucos.

Na segunda começa grandiosa, embalada por um tumulto de carros e buzinas e vai se consumindo até desaparecer na escuridão. É para muitos, para todos, suja, poluída. Contudo, entre tantos poucos a amam – quase ninguém sabe de você.

Você é bela, esplendida, é revelação e encantamento. É a melhor hora do dia; seus momentos são os mais esperados e sublimes.

No mar, na floresta, nos pampas, na avenida de um grande centro, é única, minha sempre doce e bela, Aurora.


A vida em um único verbo

Abril 26, 2009

Eu leio como quem descobre.

Eu leio como quem procura – e acha – fragmentos de si mesmo:

Uma surpresa escondida no recôndito da frase.

Fragmentos de mim que na releitura se confirmam

e se desfazem.

Eu leio como quem ama.

A vontade desregrada de esmiuçar

de devorar com os olhos,

sempre um novo encanto.

A vontade de só falar disso

só degustar isso

de querer que o mundo também ame isso.

Eu leio como se ler

fosse a única possibilidade da vida.


Zingiber officinalis

Março 15, 2009
* Este texto faz parte da série “Os muitos nomes do gengibre”.

Nesta época eu estava envolvido com um projeto que estudava algumas plantas aromáticas comuns no Brasil, e também estava ocupado com alguns artigos mais antigos que falavam sobre plantas medicinais e dois grupos de estudos sobre… sobre o quê mesmo? Não lembro, só sei que os adorava, não tanto pelos artigos discutidos, mas porque no fim sempre acabávamos discutindo futebol ou falando mal de algum professor. (Nota: fazer projeto para estudar variedades de grama para gramado de futebol.) Enfim, estava imerso na rotina de um estudante de pós-graduação em biologia.
Parece incrível, mas eu gostava do que fazia. Ainda gosto. Ficava, todos os dias, pesquisando depois que a maioria dos funcionários já havia se retirado. Digo funcionários, porque sempre ficava uma dúzia de pesquisadores por lá. Fazer pesquisa e ficar depois do expediente são quase sinônimos. Nestes momentos, ficávamos cada um em seu canto, concentrados em seus estudos, sem aquele burburinho do dia. Mal trocávamos palavras. Quando muito, nós nos esbarrávamos na cafeteira – não sei pra que estudar tantos chás se no final sempre tomamos a mesma coisa.
Naquele dia sai do Laboratório um pouco mais cedo que o habitual e fazia o percurso entre o ponto de ônibus e a minha casa distraído, como sempre, quando fui arrebatado por um cheiro. Parei onde estava, tentando distinguir que cheiro era aquele e de onde vinha. Fiquei assim por alguns minutos, até perceber que aquele cheiro forte, agridoce, vinha de uma casinha antiga, cercada por arbustos e com um portão baixo. Nunca tinha prestado atenção naquela casa, mas sabia que ela estava ali desde sempre.
Fui embora com aquele cheiro penetrante embalando meus pensamentos. Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar de que planta vinha aquele aroma tão marcante.
Por alguns dias a cena se repetiu.
Certa noite tomei coragem e resolvi bater à porta. Uma senhorinha, tão branquinha que parecia um algodãozinho com seus setenta e tantos anos,  abriu a porta com um sorriso meigo e um olhar inquisidor. Cumprimentei-a e expliquei que há dias passava pela frente da casa e sentia um cheiro que não conseguia distinguir, perguntei se ela podia me dizer qual era. A senhora me convidou a sentar na cadeira da varanda e apreciar um chá, de onde vinha o cheiro que eu estava sentindo.
O bom-senso já havia me abandonado por completo quando me vi sentando na varanda da senhora prestes a saborear aquele intrigante chá.
O gosto forte e adocicado tomou conta da minha língua, e o vapor penetrava pelo meu nariz quando de minha boca escapuliu a palavra tão procurada:  Zingiber officinalis.
A senhorinha me olhou intrigada, quando expliquei que aquele era o nome do chá. Ela, agora, me olhava um olhar complacente e, com paciência, me dizia que eu estava enganado, que aquele chá era de gengibre e que ela vinha o tomando há alguns dias para curar uma rouquidão de gripe.
Desta forma simples aquela senhora me disse algo que tomou dezenas de páginas da minha dissertação.
Enquanto terminava de apreciar o chá, conversamos sobre banalidades e o sabor do gengibre me fazia pensar no quando fazia falta esta vivência das ruas.


Carta ao coração de um estranho

Março 10, 2009

Você não me conhece, por isso, vou começar me apresentando. Gosto de sorrir e cantar. Gosto de ver as pessoas próximas a mim sorrindo. Minha alegria é algo fluido e constante, mas não tente prende-la. Minha alegria é natural e selvagem. É como o pássaro silvestre que quando preso perde o canto.
Um dia nós nos encontraremos – eu gosto de conhecer pessoas – serei gentil com você e espero fazê-lo sorrir. Se a conversa fluir, você se sentirá como se estivesse conversando com alguém que conhece há muito tempo – e ficará admirado com isso. Estará à vontade, confortavelmente à vontade, e é ai que as coisas começam a dar errado. Para você é como se me conhecesse há muito tempo, mas, para mim, você continua a ser um desconhecido. Não tente criar uma intimidade que não existe. Não fale dos meus sentimentos como se os conhecesse. Lembre-se do pássaro silvestre. Se tentar me apreender com sua intimidade artificial eu deixarei de cantar e você não vai gostar disso.
Intimidade é um laço feito de um material delicado chamado tempo que deve ser tecido com cuidado para que o resultado final não seja parecido com uma gaiola.
Calma, é o que peço.
Escrevo porque ainda não nos conhecemos – para mim, você é um estranho.
Espero nosso futuro encontro.
Até.


Carta a um Coração Partido

Fevereiro 22, 2009

Há semanas tenho um corte em meu dedo que não quer sarar. Às vezes ainda sangra e, sempre que encosto em algo, arde e dói. Mas, o pior de tudo é que, sempre que isso acontece, lembro de ti e da tua dor. Da dor que deixei ai contigo.
Foi isso que eu fiz.
Aprendi a ir vivendo e deixando pessoas para trás. Sempre preciso seguir em frente antes que o laço se faça e o nó se ate. Eu sei como é seguir, contudo, nunca soube como é ficar. Não era para ser assim, eu não queria que fosse assim, mas é assim que é. Não estranhe que estas palavras estejam saindo avermelhadas, é que o corte abriu de novo e as gostas de sangue estão se misturando a tinta. Todavia, não posso parar agora; há uma urgência nestas palavras já há muito adiadas. Elas são inevitáveis, como inevitáveis são as minhas partidas.
Sou muito frágil e, por isso, não fico. Já tentei ficar e em pouco tempo só restaram cacos. Precisei me isolar para montar um mosaico com o que restava de mim. Para unir caquinhos foi necessário levantar uma couraça ao redor e é por isso que te apreço insensível.
Repito: sou frágil, muito frágil.
Quero que entendas que não te escrevo um pedido de desculpas. Sei que o que eu fiz não tem perdão. Escrevo-te com a esperança de que possas usar estas palavras como cola caso teu coração tenha se partido quando eu fui embora.
Meu dedo continua doendo, mas ainda prefiro a dor física. Sempre podemos lamber um corte, fazer um curativo, ver a cicatrização, enfim, sempre dá para fazer algo que mantenha a esperança da cura. Entretanto, sentimentos não são palpáveis. Quando machucados nós não vemos os cortes e não há o que fazer. Não há esperança de melhora, por isso esta dor é tão dilacerante.
Espero que me entendas. Não posso fazer mais do que te escrever esta carta e seguir meu triste caminho.
Não aguardo resposta.