Paixões nômades

fevereiro 7, 2010

Recentemente, me apaixonei por uma cidade que já conhecia de outras visitas.

Foi um amor conquistado em um flerte longo baseado em detalhes sensoriais lentamente revelados.

Foi pelos sons: pelo sotaque, pelo barulho organizado das ruas, a música que toca em suas muitas rádios e nos seus becos; o ruído dos meus próprios passos ecoando ao sabor dos sapatos de frio – frio que faz com que o som seja muito mais límpido.

Foi pelas cores das flores nas praças.

Foi pela arquitetura romântica que toma conta das ruas e prédios deixando muito espaço para o verde.

Foi pelo desafio difícil de conquistar amizades novas, que desabrocham encantadoras.

Foi também por ser o endereço de uma antiga paixão, da qual persiste apenas um sabor de amor adolescente que já não nos cabe bem,  transmutada em uma madura admiração.

Foi pelos seus escritores e poetas, geniais e sujos, todos.

Foi pela minha própria solidão, ampliada cada vez que meus pés tocam seu solo.

Foi assim que me apaixonei por outra cidade no meu nômade cotidiano.


No Salão de Beleza

janeiro 30, 2010

Salão de Beleza são lugares do tipo adapte-se ou deixe-os.

Acontece quando, lá pelo  seu terceiro retorno ao mesmo salão, todos se acham no direito de opinar sobre as suas escolas. E não pense que são opiniões amenas. Não! Em geral vem em forma de reclamação ou critica: “essa cor de novo? Porque não pinta com um pink, está super na moda!” ou “o quê? Hoje não vai cortar o cabelo? Pois saiba que se você não cortar hoje, até a terceira geração de teus descendentes poderá ficar careca!”.

Nunca subestime o poder premonitório de um salão.

Lá em Pato Branco tem um barbeiro que demora em cortar os cabelos que lhe são confiados porque para no meio do corte para contar piadas. O salão está sempre lotado de clientes que vão lá só para fazer uma manutenção – não do corte, mas do riso.

Nunca subestime o poder socializador de um salão.

Agora, bom mesmo é acompanhar as mudanças no cardápio feminino de soluções capilares. Para mim as escovas do tipo definitiva – aquelas que não saem quando você molha o cabelo – são um exemplo clássico. Primeiro foi a fase das escovas com nomes que demonstram eficácia: “escova definitiva”, “escova permanente”, etc. Depois vieram as que queriam vender uma imagem de alta-tecnologia-high-tech-última-geração, como as “escova progressiva”, “escova de aminoácidos” e “escova inteligente”. Depois vieram as de cunho culinário: “escova de chocolate”, “escova de açúcar”, “escova de açúcar mascavo” (hein?), “escova de morango” e “escova de arroz”. Por fim – e por “fim” entenda-se até onde eu consegui acompanhar – vieram as escovas de cunho étnico: “escova indiana”, “escova chinesa” e “escova marroquina”.

Nunca subestime o poder criativo-marqueteiro de um salão.

Outro dia, eu estava conversando com duas amigas quando a seguinte conversa se deu:

- Menina, o seu cabelo ficou muito bom! Quanto você pagou por esta escova? – perguntou Dê.

- Gostou? Eu tive que fazer duas e por isso paguei cento e vinte reais. Ainda assim saiu mais barato que os 500 reais que a Cida pagou na dela – respondeu Ju.

- 500? – disse eu, espantada.

- E que escova você fez? – perguntou Dê, que ainda não sei porque estava tão interessada já que nasceu com o cabelo lissíssimo.

- Fiz a Indiana, mas não ficou muito bom, ai eu fiz a Marroquina por cima para acertar. – respondeu Ju.

- E qual foi o tipo de escova a Cida fez? – perguntou Dê.

- A do tipo “cara” – respondi mais que prontamente.

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Crônica inspirada nesta do André Simões.


Meus votos para 2010

janeiro 3, 2010

Meu voto para este ano é bastante simples: que 2010 seja o melhor ano da sua vida até agora. Mas, com uma condição: que ele seja bom na medida das suas escolhas.

Sim, meu voto é que você descubra que ser feliz é uma opção, pois só assim você poderá transformar todos os anos no melhor da sua vida. Eu desejo que você não tenha medo de escolher, de começar a mudar, de permanecer na mudança quando esta for para o bem. Que você não tenha medo do bem.

Quantas vezes você já teve medo daquilo que faz bem, por medo do novo, por comodismo?

Desejo, que o medo deixe de ser um fator determinante na sua vida, e que preguiça deixe de ser uma palavra corrente no seu vocabulário. Por que preguiça é só uma desculpa esfarrapada, não é um fator determinante.

Como eu disse, meu voto é bastante simples: eu desejo que você escolha que 2010 seja o melhor ano da sua vida. Pelo menos até agora.


Meninos estão por todas as partes

dezembro 20, 2009

Meninos estão por todas as partes
me julgando com suas verdades
independente da hora

Meninos são meninos
e o que lhes satisfaz
não está disponivel

Sonhos baratos vendidos
em troca do quê
finjo não saber

Meninos são histórias
Sem graça e sem vida
Cheirando cola

Meninos e eu
verdades fluidas
morrendo e matando(-se)

Fingindo, mais que poetas
Vivendo…
Quem finge melhor vive mais


Dando bobeira para a sorte

dezembro 15, 2009

Quando era estudante de psicologia e comecei a atender na clinica inventei a expressão “dando bobeira para a sorte”. Que significa “tente fazer as coisas de um jeito diferente, de um jeito que costuma dar certo para outras pessoas que estão na mesma situação, que assim a chance de você acertar será maior”.

Em geral, clientes quando chegam a clinica estão “dando bobeira para o azar”. Ou seja, eles estão se comportando de forma inapropriada para as situações a que se propõe enfrentar e com isso tem resultados pouco satisfatórios – para não dizer desastrosos.

Na clínica o que os psicólogos da minha abordagem costumam fazer é tentar ensinar os clientes a pararem de “dar bobeira para o azar” e começarem a “dar bobeira para a sorte”.

Contudo, até hoje, esta expressão servia apenas como uma tentativa minha de tornar a terapia mais leve usando uma expressão próxima do cotidiano – e para fazer a minha antiga supervisora de clinica dar algumas risadas.

Eis que descobri que tem alguns psicólogos estudando o porquê de algumas pessoas serem mais sortudas e outras mais azaradas.

Entre eles o psicólogo inglês Richard Wiseman, autor do livro Esquisitologia-A estranha psicologia do cotidiano. Em um trecho do livro é descrito o resultado de uma pesquisa sobre sorte com a seguinte conclusão:

“Resultados como esse revelaram que os voluntários estavam criando muito de sua boa ou má sorte por conta da maneira como pensavam e se comportavam. As pessoas de sorte eram otimistas cheias de energia e predispostas a novas oportunidades e experiências. Por outro lado, os azarados eram mais retraídos, desajeitados, ansiosos em relação à vida e pouco inclinados a aproveitar ao máximo as oportunidades do caminho.”

O que basicamente quer dizer: pessoas sortudas dão bobeira para a sorte, e pessoas azaradas dão bobeira para o azar.

Por isso, meu caro, se é para dar bobeira para alguma coisa, escolha dar bobeira para a sorte.


Porque Comédias Românticas são perigosas

dezembro 7, 2009

Comédias românticas são perigosas. Elas nos fazem acreditar em coisas que não existem.

Ao assistir um filme deste gênero nos submetemos a sermos bombardeados por duas horas de toneladas de casais felizes e apaixonados, famílias harmoniosas, pessoas morando em lugares lindos, vivendo emoções raras como se tomassem café na esquina, topando com oportunidades incríveis de realizar sonhos a cada suspiro e, finalmente, com fantásticos finais felizes.

E é neste instante que percebemos o grau de periculosidade da comédia romântica. Acabado o filme restamos nós e a nossa vida.  Nós e nossa miserável vida.

Por comparação a nossa vida sempre será miserável.

Comédias românticas são lobos em pele de carneiro.

Por isso, sempre que alguém chega para mim reclamando da vida a primeira providencia que eu sugiro é que deixe de ver as perigosas comédias românticas.

Sugiro que passe a ver filme de terror. Sim, filmes de Terror, afinal, é um alivio tamanho, acabado o filme, voltar para as nossas vidas, onde não tem um monstro assassino atrás de cada porta.

Defendo que filmes de terror são infinitamente mais eficientes que qualquer manual de auto-ajuda.

Portanto, cuidado, muito cuidado com as comédias românticas, essas Serial Killers da auto-estima.


Loteria ou o número da esperança – Uma história sobre improbabilidades

novembro 29, 2009

A loteria havia acumulado novamente. Para onde quer que se olhasse, o que se via era a mídia anunciando o grande premio ou pessoas comentando sobre o assunto.

A loteria acumulara, era fato, e as contas apertavam, outro fato.

Desta vez cedeu a pressão e a expectativa geral. Cedeu, principalmente, à esperança.

Seguiu, quase sem pensar, tantos outros que se dirigiam ao mesmo lugar, naqueles dias em que todos juravam carregar em si a semente da sorte.

Entrou na lotérica, estava lotada. Com algum custo conseguiu um bilhete, e com um custo um pouco maior conseguiu uma bic amarrada ao balcão por uma pequena corrente.

Então olhou para os lados. Todos compenetrados no seu jogo. Alguns faziam o sinal da cruz, seguravam algum santinho ou patuá. Outros faziam contas, ligavam para parentes, lembravam de sonhos.

Foi quando se deu conta de que não sabia jogar na loteria. Nunca havia jogado e não tinha a menor idéia do que devia fazer. Olhava para o lado e via: qualquer um sabia jogar na loteria, menos ele.

Ficou atordoado com tal constatação, e saiu para a rua, onde seus atos faziam sentido. Conforme se afastava da loteria foi ficando aliviado. Estava livre do peso da esperança jogando contra as probabilidades.

Não sabia jogar na loteria e sabia que nunca aprenderia.

* História baseada em fatos reais


Sendo a contradição

novembro 15, 2009

Deve ser um bocado estranho quem me vê pela cidade assim, vestida com roupa esportiva, tomando café em uma conveniência enquanto leio um livro de literatura, desses que há muito tempo ninguém mais lê – não em público, pelo menos.

Pura contradição.

Desconfio que o ar simpático das atendentes não seja retribuição da educação que dispenso a elas, mas sim que seja fruto da benevolência que costumamos dispensar aos loucos.

Lembro-me de um tempo de definições mais fáceis onde loucos eram todos aqueles que eu não conseguia entender. Hoje eu entendo a todos, sobretudo aos loucos. Os loucos e estas atendentes de ar benevolente, tão fáceis, tão simples com seus aventais brancos, que eu quase me apaixono.

Sou salva deste delírio pela conta, nada benevolente, do meu café.

Com meu ar distante e um livro guardado na bolsa tomo novamente as ruas onde posso ser confundida com uma destas atendentes ou com outros loucos.

Desconfio que seja sempre confundida com outros loucos.


No cafezinho

novembro 12, 2009

- Não entendo porque o chá e o café já não vêm adocicados…

- Simples. É para lembrar que ser doce é uma opção.


Retornando

novembro 1, 2009

Cozinho uma receita sem gosto e sem graça para anestesiar a compulsão de meus dias.

Ao lado, um chimarrão que traz o amargo para a boca, tornando especial o momento certo da saudade. Saudade que sempre varia nos dizeres, apesar de o sotaque não variar.

Gosto de viajar, já declarei isso milhares de vezes. Declaro novamente. Viajar é ter oportunidade de sentir saudade do que era rotina. Viajar é sentir saudade do que ainda está por vir, da descoberta de um tempo paralelo em outra parte do planeta.

Ontem voltei de viagem, hoje é dia de esquecer com o que quase me acostumei.

É mais fácil arrumar as malas do que desfazê-las e assim também é com sonhos que depois de desfeitos trazem uma sensação de alivio tão grande que esquecemos do porque estávamos tão apegados a aquele  sonho. Fazer as malas é lutar contra a sensação de estar esquecendo alguma coisa. Sonhar é lutar com a realidade.

A comida ficou pronta e a mala está desfeita. Ainda me resta este chimarrão frio para sorver um pouco desta saudade sem prazo de validade.