Retornando

Novembro 1, 2009

Cozinho uma receita sem gosto e sem graça para anestesiar a compulsão de meus dias.

Ao lado, um chimarrão que traz o amargo para a boca, tornando especial o momento certo da saudade. Saudade que sempre varia nos dizeres, apesar de o sotaque não variar.

Gosto de viajar, já declarei isso milhares de vezes. Declaro novamente. Viajar é ter oportunidade de sentir saudade do que era rotina. Viajar é sentir saudade do que ainda está por vir, da descoberta de um tempo paralelo em outra parte do planeta.

Ontem voltei de viagem, hoje é dia de esquecer com o que quase me acostumei.

É mais fácil arrumar as malas do que desfazê-las e assim também é com sonhos que depois de desfeitos trazem uma sensação de alivio tão grande que esquecemos do porque estávamos tão apegados a aquele  sonho. Fazer as malas é lutar contra a sensação de estar esquecendo alguma coisa. Sonhar é lutar com a realidade.

A comida ficou pronta e a mala está desfeita. Ainda me resta este chimarrão frio para sorver um pouco desta saudade sem prazo de validade.


Sobre fazer estágio

Outubro 4, 2009

Quando fazemos faculdade procuramos fazer um estágio que nos prepare para o futuro. E assim batalhamos por aquela vaga de estágio em uma empresa renomada ou na clinica em expansão.

Eu, estudante de psicologia que era, levei um pouco à sério demais esse negócio de “fazer um estágio que nos prepare para o futuro” e fiz um estágio sobre envelhecimento. E, enquanto tentava sobreviver aos fantasmas da adolescência, aprendi sobre esse outro fantasma muito mais irreversível e assustador.

Alguns de meus colegas de curso foram ainda mais radicais e fizeram um estágio sobre morte. É uma aposta certeira, há 100% de garantia de que se encontrará com aquele futuro para o qual se quis preparar. Envelhecer, só se a morte permitir, se ela tardar, porque ela não falha. Nunca.

Escolher um estágio sobre envelhecimento ao invés de um estágio sobre morte é apostar na esperança. Combina comigo – realista e sonhadora ao mesmo tempo.

Foi desse jeito que, mais uma vez, escolhi a vida. Por mais dura que ela fosse, por mais perdas que ela acarretasse, por mais incerta que ela se mostrasse.

Porque certeza, certeza mesmo, eu só tenho uma, mas é melhor deixar isso para depois.


Sobre mudanças

Setembro 1, 2009

De todas as mudanças que eu fiz, de tantas, só uma mudança me doeu com a intensidade temida.

Fiquei meses com uma sensação de vazio, estranha, como um estampido no ouvido.

Era uma saudade… talvez. Era algo que estava sendo desfeito, era novamente ter de me construir, ter de testar uma personalidade recém esboçada. Momento enfrentar medos antigos, daqueles que a gente esconde embaixo da cama, mas que sempre aparecem quando se apaga a luz e a mãe vai embora…

Depois fui testada de outras formas pela vida, contudo as mudanças deixaram de ser momentos de grande angustia, para se tornarem necessárias.

Aquela mudança foi crucial para eu ser o que sou hoje.

Para o bem ou para o mal, me tornou mais dura, mais estéril para o intimo e, ao mesmo tempo, mais flexível e fértil para o mundo.

Eu já mudei de cidades pequenas para grandes, e depois de cidades cosmopolitas para vilas. Sempre se aprende. Sempre se adapta.

Descobri que difícil não é se adaptar a nova paisagem e a nova rotina, difícil é encontrar embaixo dos sobretudos aquilo que a Cecília Meireles procurava em suas viagens e que lhe escapava: aquilo que ela chama de alma.

Ou pelo menos uma alma rara, que me faça valer a pena, uma alma que também precise de salvação.


As tuas palavras

Agosto 23, 2009

Hoje, ao acordar, logo vi que os barulhos da rua eram matinais demais para ser tarde,

Que a manhã era clara demais para ser chuva,

Que tuas palavras ecoariam em meus ossos

para sempre.


O Homem que guardava arte embaixo do colchão

Agosto 16, 2009

Os tempos eram difíceis. Uma guerra estava em andamento e as pessoas se preveniam das dores como podiam. As hordas de fugitivos aumentavam a cada dia, e não haviam lugares seguros onde pudessem parar ou bússola que os norteassem. As pessoas fugiam, fugiam sem saber exatamente do que – fugiam, principalmente, delas mesmas.

Uma guerra estava em andamento e poucos se prestavam a ajudar. Ainda menos pessoas sabiam que precisavam de ajuda.

Nas cidades do interior a guerra era mais cruel porque o desentendimento era maior.  Ninguém estava disposto a aceitar o outro, todos eram incitados a fugir, mas as barreiras para com os fugitivos eram quase impossíveis.

Em uma dessas cidades havia um homem que possuía uma fé apaixonada pela humanidade e a quem essa guerra feria com maior intensidade, como fere a todos que se tornam conscientes do holocausto sem razão das guerras.

Esse homem, após muitos questionamentos, decidiu abrir a sua casa para acolher aos fugitivos.

Muitos bateram à sua porta. Poucos permaneceram.

Sua acolhida assustava pela intensidade, e seus “remédios” nada mais eram do que apelos à razão, razão tão esquecida, tão chocante, que era tratada como loucura.

A guerra se intensificava e aqueles que aceitaram sua acolhida estavam cada vez mais inquietos. Percebendo a desilusão, o homem decidiu que era chegada a hora de compartilhar com eles seu último tesouro. Reuniu todos e disse que guardava suas preciosidades embaixo do colchão. “Deve ser algo muito valioso para ser guardado embaixo do colchão”, pensaram todos.

O homem foi tirando um a um telas e poemas do seu esconderijo. As telas eram exibidas com vagar tentando aproveitar vários ângulos de luz. Os poemas eram lidos com paixão e urgência. Quando começou a exibi-los uma decepção tomou conta de todos, “ora” – pensavam – “no que isso pode nos ajudar?”.

Contudo, conforme as telas e poemas foram se sucedendo eles tocaram o que havia de mais intimo nos presentes. A sensibilidade foi sendo aguçada e foram todos levados a um tempo de delicadeza.

Quando se acabaram as obras, houve um momento de silêncio, outro de despedida e um terceiro de dispersão.

Agora eles não fugiam mais, caminhavam levando esperança em seus olhos. Esperança que era o legado de um homem que guardava arte embaixo do colchão.

 

* Esse texto é uma homenagem ao meu grande amigo Gilbert Antônio, um homem que guarda arte embaixo do colchão.


Um tanto de beleza e outro tanto de moral

Agosto 3, 2009

Uma coisa que eu queria era que meus textos fossem amorais. Que neles não prevalecesse esse tom professoral que as vezes meus textos apresentam.

Contudo eu sou um ser social, com um tanto de experiência de vida outro tanto de coisas por aprender e um universo inteiro de coisas que nunca sequer suspeitarei que existem… Enfim, minha moral existe, muda conforme vivo coisas novas, e deixo que ela transpareça nos meus textos mais do que gostaria.

Justificativas dadas, esse texto tem conotação moral.

Dentre algumas coisas que eu aprendi por essa vida uma foi que, independente da aparência, as pessoas podem nos ensinar muito.
As duas palavras importantes na frase anterior são: ensinar e aparência.

Cuidar da aparência é importante, você sabe. A sua mãe ensinou isso pra você e as revistas de moda também.

Se você é uma pessoa bonita e bem cuidada, bom pra você. Com certeza você tem um bocado de sorte na vida. As pessoas em geral gostam de pessoas bonitas e bem vestidas, eu gosto delas, e você provavelmente gosta também.

Contudo, beleza só é credencial de beleza. Uma pessoa não é mais interessante por ser bonita. Em geral, pessoas bonitas se levam a sério demais, levam beleza a sério demais. E fica muito feio uma pessoa chata que se leva a sério demais.

Fica mais feio ainda quando essa pessoa é preconceituosa e discrimina pessoas pela aparência. Coisas como, “ele é feio, mas é dedicado”, “ela é sem graça, mas é inteligente”, doem. É como se por ter uma aparência menos aprazível a pessoa se desqualificasse para qualquer outra coisa. Como se não existisse qualidade maior que a de ser belo.

Pessoas idosas, em geral tem muitas histórias para contar.

Pessoas com deficiências físicas tem histórias para contar.

Você tem histórias para contar, e eu não sei nada sobre a sua anatomia.

Belo ou não, entenda uma coisa: se deixássemos de medir pessoas por aparências ganharíamos tempo e imputaríamos menos tristeza nos outros.

Em suma: menos preconceitos e mais alegrias.

Pense nisso. Você só tem a ganhar. Até em beleza.


Sou uma pessoa solitária

Julho 20, 2009

Sou uma pessoa solitária. Gosto de caminhar pelas ruas ensaiando novos ritmos para o meu andar.

Sou uma pessoa solitária. Gosto de tomar calmamente um chá, um café ou um chimarrão para ir, com eles, deglutindo pensamentos.

Sou uma pessoa solitária, mas gosto de conversar e desbravar novos indivíduos, e é evidente a explosão de vivacidade que toma conta de meus olhos quando acontecem os raros encontros de almas.

Sou uma pessoa solitária e me deixo conduzir pela música do vento, deixo que ela seque minhas lágrimas e bagunce minhas idéias – pura distração.

Sempre fui solitária e por isso não tenho medo da solidão: minha solidão me é cara – e talvez este seja apenas mais um erro juvenil.


Carta a um Coração Viajante

Julho 12, 2009

Recebi teu postal ontem. Agradeço o convite e sinto não poder acompanhar-te nesta viagem. Tu sabes, viajens me acalmam a alma, por isso invejo tua rotina nômade. Por isso, também, faço minha rotina estática uma eterna viagem e esse olhar distraído é porque minha alma está sempre por aí…

As palavras são meu melhor passaporte e os livros bons companheiros, mas outras formas de arte também embalam as minhas viagens. Gosto de me envolver em vários projetos ao mesmo tempo e está é uma forma de estar em vários espaços criativos diferentes.

Enquanto escrevo esta carta, tu deves estar saboreando outras paisagens e vislumbrando novos sabores. Eu por minha vez, viajo um livro novo enquanto tento descobrir de que matéria é feita a natureza dos meus sonhos.

Aproveites a viajem e sigas em paz teu andarillho caminho enquanto sigo o meu.

Espero poder me juntar a ti em breve.


Segredinhos de Amor

Julho 6, 2009

Tem segredos que perdem a validade. Com o tempo o contexto se perde, as frases deixam de pesar e o que tornava aquelas palavras preciosas de serem guardadas já não existe mais.
Contudo segredos de amor nunca perdem a validade. Eles vão causar impacto sempre que revelados, e no dizer, mesmo que o sentimento já seja algo passado, o coração volta a acelerar… e se o amor era destinado a você vem sempre aquela sensação deliciosa de sentir-se amado e importante para alguém. Mesmo que passado muito tempo, pois, como diz Chico Buarque “amores serão sempre amáveis”.
Um segredo de amor é algo que ventila a alma, trás renovação de sonhos e aquela pontinha de esperança no ser humano.
Um segredo de amor deve ser aberto e recebido com cuidado. Por mais lindo que o segredo seja, nunca é fácil abrir-se para deixar que um segredo respire os ares do mundo. E nem sempre é fácil descobrir que por trás daquele ar blasé havia um segredo de amor guardado com tanto cuidado, talvez até com tanta paixão.
Cuidado com os seus segredinhos de amor. Eles são parte valiosa dos seus próprios sonhos.


Brasília decolando

Junho 28, 2009

Já pousei e decolei várias vezes em Brasília e, em todas, não me furto a tentar divisar, pela janela da aeronave, o formato de avião que lhe deu Lucio Costa – mesmo que este preferisse que a cidade tivesse contornos de borboleta. Obviamente, não consigo adivinhar nesta profusão de nuvens e prédios o seu formato original e fico pensando se existiria um ângulo apropriado para isso. Sempre me convenço de que o plano piloto se perdeu e, então, me ponho a imaginar em que prédio, esquina ou cornubação isso teria acontecido. Às vezes sonho que o avião “Brasília” levantou vôo levando o Brasil no bagageiro e ninguém notou quando ou como – em uma provável decolagem não autorizada e sem plano de vôo.