Eu sempre a via lavando roupa na beira do rio. Rio caudaloso, o maior do mundo – diz a enciclopédia – que levava a espuma de suas roupas para longe. As espumas escorriam para distâncias tão grandes quanto estas que percorre a minha imaginação quando penso nesta cena. Não sei de onde tirei tal imagem, mas ela sempre pareceu à minha imaginação tão real quanto a minha razão a sabe improvável.
Pensando bem, devem ter sido as suas pernas; pernas torneadas de quem lava roupa de cócoras a beira do rio. Provavelmente a cena, ainda comum no interior, nunca foi protagonizada por ela, garota da cidade ilhada. Contudo, com certeza foi repetida milhares de vezes por suas antepassadas. O esforço de suas infinitas avós resultou naquele par de pernas, penso, dando razão a teoria refutada de Lamarck.
Pernas que ela fazia questão de exibir usando saias e shorts curtos justificados pelo calor – escolhidos pela vaidade.
Aparecia sempre a tarde, mas nem em todas as tardes. A frequência deve ser determinada pelo calendário que algum astrólogo arbitrário inventou para seu uso, eu plagiava Cecília Meireles à noite, enquanto olhava a Lua e pensava se teria a sua companhia na tarde seguinte.
Sempre que vinha trazia umas balas de fabricação caseira que ela chamava de bombons e que eram envolvidas em papel manteiga sem nenhuma identificação. Só lembrava de perguntar do que eram depois que ela já tinha ido embora e tudo que restava da sua presença era aquele sabor indefinível.
Para mim, aquele era o sabor dela.
Nas tardes de mormaço – naquela terra todas as tardes eram de mormaço – nos perdíamos nas conversas até o cair da tarde quando ela anunciava que precisava ir embora e saia de supetão como quem é pego de surpresa pela lembrança de um eminente compromisso importante.
Chamava-se Aghatha – assim mesmo, com dois agás que nomes de grafia incomuns são comuns onde os rios se encontram. O nome caia perfeitamente com seus olhos felinos. Uma espécie de gueixa as avessas, uma gueixa da selva; seus olhos puxados são para mim a prova irrefutável do Estreito de Bering.
Olhos grávidos de guaraná e lendas da Amazônia.
Tinha os gestos lentos de uma bailarina minimalista que dança a música da floresta.
Ela não sabia, mas eu já havia adiado a minha partida algumas vezes por sua causa. Ao cabo de alguns meses embriagado pela sua presença ela desapareceu por mais de uma semana – era o astrólogo arbitrário que me concedeu uma doida falta.
Pensei que fosse explodir de saudade.
Finalmente fui tomado por um lampejo de sobriedade e decidi que minha inevitável partida se tornará também inadiável. Era ir embora ou enlouquecer.
Paguei as dívidas, resolvi as pendências, dispensei o ajudante e arrumei as malas.
Aguardava a carona até o porto – a longa viagem de navio era uma lenta despedida, o luto exigido pela minha sanidade – quando ela apareceu.
O céu carregado fazia o dia parecer noite e acentuava o mormaço. Ela chegou de vestido, viu as malas e as prateleiras vazias assim que passou pela porta. Não precisei dizer nada, Aghatha sabia. Por um instante fez pose de quem vai protagonizar uma discussão – mulher que nasce nesta terra é sempre uma guerreira no amor. Hesitou. Acabou fazendo um muxoxo triste com os lábios, deu meia volta e saiu.
Todas as minhas certezas viraram precipício neste momento. Eu continuava imóvel: qualquer movimento poderia ser fatal – a queda era inescapável.
Foi então que eu vi as balas e a curiosidade me salvou; corri até a janela e gritei-lhe perguntando de que sabor eram. Um relâmpago e um forte trovão ricochetearam antes da resposta.
Mangarataia, ela disse, sem se virar. Não adiantou esconder os olhos: a voz embargada a denunciava.
Choviam gostas espessas.
Tivesse se voltado teria visto que de meus olhos escorriam lágrimas de gengibre.