Os tempos eram difíceis. Uma guerra estava em andamento e as pessoas se preveniam das dores como podiam. As hordas de fugitivos aumentavam a cada dia, e não haviam lugares seguros onde pudessem parar ou bússola que os norteassem. As pessoas fugiam, fugiam sem saber exatamente do que – fugiam, principalmente, delas mesmas.
Uma guerra estava em andamento e poucos se prestavam a ajudar. Ainda menos pessoas sabiam que precisavam de ajuda.
Nas cidades do interior a guerra era mais cruel porque o desentendimento era maior. Ninguém estava disposto a aceitar o outro, todos eram incitados a fugir, mas as barreiras para com os fugitivos eram quase impossíveis.
Em uma dessas cidades havia um homem que possuía uma fé apaixonada pela humanidade e a quem essa guerra feria com maior intensidade, como fere a todos que se tornam conscientes do holocausto sem razão das guerras.
Esse homem, após muitos questionamentos, decidiu abrir a sua casa para acolher aos fugitivos.
Muitos bateram à sua porta. Poucos permaneceram.
Sua acolhida assustava pela intensidade, e seus “remédios” nada mais eram do que apelos à razão, razão tão esquecida, tão chocante, que era tratada como loucura.
A guerra se intensificava e aqueles que aceitaram sua acolhida estavam cada vez mais inquietos. Percebendo a desilusão, o homem decidiu que era chegada a hora de compartilhar com eles seu último tesouro. Reuniu todos e disse que guardava suas preciosidades embaixo do colchão. “Deve ser algo muito valioso para ser guardado embaixo do colchão”, pensaram todos.
O homem foi tirando um a um telas e poemas do seu esconderijo. As telas eram exibidas com vagar tentando aproveitar vários ângulos de luz. Os poemas eram lidos com paixão e urgência. Quando começou a exibi-los uma decepção tomou conta de todos, “ora” – pensavam – “no que isso pode nos ajudar?”.
Contudo, conforme as telas e poemas foram se sucedendo eles tocaram o que havia de mais intimo nos presentes. A sensibilidade foi sendo aguçada e foram todos levados a um tempo de delicadeza.
Quando se acabaram as obras, houve um momento de silêncio, outro de despedida e um terceiro de dispersão.
Agora eles não fugiam mais, caminhavam levando esperança em seus olhos. Esperança que era o legado de um homem que guardava arte embaixo do colchão.
* Esse texto é uma homenagem ao meu grande amigo Gilbert Antônio, um homem que guarda arte embaixo do colchão.