Dos males o menor

maio 23, 2012

Encontro com minha vizinha:
- Menina estou com uma dor no estômago! – ela lamenta.
- Gastrite? – pergunto.
- Sim! Estava controlada, mas não posso sentir ódio que ela já ataca de novo… – ela constata.
- Menos mal, né? Pior seria se não pudesse sentir amor…


A leitura como um ato de amor

maio 14, 2012

Passando uns dias na casa dos meus pais, descobri uma das coisas que eu mais sentia falta morando sozinha (ou mesmo em república): da leitura compartilhada.

Na casa deles existe uma mesinha de centro na sala de estar onde alguns enfeites dividem o espaço com as revistas mais recentes e os livros que estão sendo lidos. Essa sala, contratiando as expectativas, é mais frequentada do que a sala de televisão.

Lá, senta-se para ler a qualquer hora do dia: nos pequenos intervalos, enquanto toma-se chimarrão, depois do almoço, antes de dormir… qualquer hora torna-se uma hora de leitura.

Contudo, não é da sala de leitura que tenho saudades. Tenho saudades da leitura compartilhada. Lá, lemos uns para os outros. Quando nos chama atenção em um texto, logo chamamos alguém para ouvir aquele trecho. Pode ser um pedaço de uma reportagem interessante, pode ser a citação de um livro ou um pequeno poema.

Ao ler em voz alta, queremos que as pessoas que gostamos também sintam o prazer que sentimos ao ler aquelas palavras tão preciosas.

Lógico que nem tudo são flores. Não raro ouvimos alguém falando: “pará de ficar contando as coisas antes, você está estragando a minha leitura!” Para quem exagera nos trechos citados de algum texto de interesse comum.

Assim, assunto também não nos falta. Comentar o que foi ou está sendo lido, debater alguma reportagem, reclamar de algum autor, tudo isso faz parte da rotina da nossa conversa.

Na minha família, ler em voz alta aquilo que gostamos é um carinho a mais. É uma forma de amar, em voz alta, pelas letras.


Por que uma mulher tão interessante quanto você está sozinha?

abril 2, 2012

A rosa imperfeita metamorfose pensante

Desculpe-me, mas não considero essa pergunta um elogio. Pelo contrário: considero-a ofensiva.

A pergunta escamoteia machismo. O que ela diz é: mulheres só são “interessantes” para estarem acompanhadas; o premio para uma mulher “interessante” é ter um homem ao seu lado; uma mulher é interessante apenas se tiver um homem a seu lado para validar isso, etc.

Mulheres podem ser inteligentes, bonitas e ter qualquer outra qualidade valorizada pela nossa sociedade que queira atribuir para ela e estar sozinha e feliz.

“Ah, mas isso é um desperdício!”

Desperdício é gastar vida em relacionamentos desinteressantes, submissos, que não trazem alegria apenas pelo conforto de poder cumprir o papel esperado pela sociedade.

Se esse homem não consegue entender porque uma mulher interessante está sozinha e considera isso um desperdício, então ele provavelmente não é interessante o bastante.


Paixonites e outras dívidas

março 4, 2012

Paixão é um sentimento rápido. Deveriamos entender isso de uma vez por todas: rápido se acende, rápido se consome – e é consumido. Nem sempre se consuma, mas o rastro de cinzas é inevitável.
Paixão é um sentimento intenso. Um sentimento obssessivo, possessivo, e tantos outros, incontáveis, “sivos”.

E quem consegue se manter a salvo das paixões? Não foi criado ainda um bunker para separar pessoas de sentimentos.
Para manter-se a salvo, o preço é muito alto: não se distraia nunca. Não é permitido nenhum momento de descanso ou poesia. A música, mesmo a mais pesada, é um feitiço perigoso e deve ser evitada a qualquer custo. Manter-se surdo as promessas é indispensável. Doces, crianças, animais, novelas e até comerciais de televisão, todos devem ser evitados. Amigos, familia, suspiros ao anoitecer… tudo deve ser evitado.

Restará apenas a vida dura e o árduo oficio que caleja as mãos.

Quem há de pagar o preço de viver sem paixão?


Delicadas, efêmeras, carnívoras: flores.

fevereiro 4, 2012

Gosto de flores por causa da beleza, do cheiro, das cores, do carinho, das lembranças…

Gosto da alegria e do brilho, do significado e do ritual.

Gosto, também, por motivos menos óbvios.

Encantam-me por serem efêmeras: mal vem ao mundo e já estão se despedindo. 

As flores murchas, as flores secas, as flores defeituosas, estas tem a minha admiração. Adimiro-as tanto quanto as viçosas, as em botão, aquelas que estão se abrindo abrindo para a vida.

As flores me ensinam: sua curta e bela vida é a lição mais contundente da fugacidade da beleza e da fragilidade da vida.

Na minha casa, flores murchas tem lugar de destaque por me ensinarem aquilo que o resto do mundo insiste em esconder.


Para 2012

janeiro 1, 2012

Que 2012 seja um ano incrível para todos.
Que a paz reine.
Que a procrastinação fique longe.
Que a esperança seja uma bussula, que o trabalho seja bem feito e gere bons frutos.
Que o ano seja pleno em alegrias e realizações.
Que os momentos de ternura sejam vastos e que a gentileza transborde nos sorrisos.
Feliz ano novo!


Os lados da moeda

dezembro 9, 2011

Tudo vai, mesmo que uma ou outra coisa insista em sempre voltar
Talvez a vida seja feita de ciclos ou uma rota incrivelmente não linear

O que você vê e como,
O que você acredita que vai, o que fica e o que volta depende mais das suas crenças
Do que do mundo, essa incrível sequência de acasos
(E isso também é um crença)

Suas ações sobre o mundo tem consequências
(grandes, pequenas, nulas ou inesperadas)
E por isso é necessário agir
Saber do importante papel do acaso não significa não acreditar na ordem
É apenas não fazer essa ordem caber em uma crença

Irracionalmente, continuo amando a vida

Mesmo quando sei da sua falta de sentido
Ou quando a culpa torna pesada a minha carga
Quando me sinto oprimida
Mesmo assim, sigo amando a vida

Se existe algo importante a ser aprendido é a
seguir sempre em frente

Vez ou outra é possível até ser feliz.


Um conselho da vovó

novembro 13, 2011

A Vovó Mimi é uma daquelas pessoas que vale a pena conhecer e trocar um dedinho de conversa. Ela não fala muito, apesar de não se furtar a dar ordens quando precisa e conselhos quando acha necessário.

Conversando com ela ouvi uma dessas histórias.

Uma pessoa da família andava bastante agressiva e vovó, incomodada com a situação, disse que ela deveria cantar. Cantar o tempo todo: ir para o trabalho cantando, tomar banho cantando, fazer o serviço de casa cantando. Se não pudesse cantar alto, que cantasse baixinho, em pensamento. O importante era não ficar pensando em coisas ruins.

Agora você já sabe: se estiver se sentindo mal, chateado com alguma coisa, de mal com alguém: cante.

Cantar não depende de religião, dinheiro ou espaço. Nem de voz precisa: cantemos em pensamento.

Viver pode ser muito melhor.

Cante, esse foi o conselho da Vovó.


Carta a um coração distante

outubro 30, 2011

Caríssimo,

Escrevo porque preciso escrever algo que talvez você desconheça. Eu mesma não sei ao certo o que é, mas sinto necessidade de escrever e assim o faço.

Começo esta carta chamando-o de caríssimo, contudo o adjetivo tanto faz, o que importa é o superlativo, afinal, tudo em você é intenso. E é a intesidade o que me encanta em você: o olhar penetrante, o riso descontraido, o pensamento profundo. Não posso esquecer do abraço que parece querer tocar o outro, puxá-lo para o seu mundo – e o mundo retribui em amigos e amores.

Já me esbaldei da sua compania e hoje, sinto dizer, tenho saudades.

Nossos encontros não são físicos: é um encontro de almas, e o brilho no olhar não deixa mentir.

As vezes penso que o amo. Muitas outras, penso que você é apenas mais uma obsessão, entre tantas.

Difícil me curar de você. Nunca tive tantas recaídas de uma mesma doença. Meus sistema imunológico se rendeu ao seu charme.

É estranho como nos apegamos as obsessões. Mais estranho ainda é como elas fazem parte de nós, e quando menos esperamos, passam a nos definir.

Já fizemos muito para nos aproximar, mas acabamos ainda mais distantes.

Não escrevo para marcarmos um encontro. Sei que só seremos possíveis em um encontro casual.

Casualmente, esta carta o encontrará.


4 e(u)stações

outubro 23, 2011

Já pensou em como o clima muda a forma como nos relacionamos com o mundo? Se são quatro as estações do ano, quatro são as diferentes formas que vivemos cada uma delas.

No outono um casaco passa a compor nossa vestimenta e pelas ruas nos pegamos hipnotizados com o movimento ritmado das vassouras que varrem as folhas que caídas das árvores.

As arvores se despedem de partes de si para se prepararem para os rigores do inverno. Nós também no depidimos de algumas das nossas caracteristicas expostas na estação anterior e ficamos mais introspectivos, mais caseiros, as palavras ganham outro peso e começamos a falar mais baixo.

O inverno chegou sorateiro na madrugada e seu hálito congelante nos impele a ficar na cama. O abraço fica mais demorado, pois juntos é mais quentinho. As rodas de converas migram em busca de sol, e os raros dias ensolarados ganham céu de brigadeiro.

O ar da estação deixa os sons mais limpos. As conversas na cozinha se estendem e ganham em profundiodade. Com sorte teremos um fogão a lenha para relembrar histórias de outros tempos reproduzindo a cena ancestral da aldeia em torno da fogueira.

Os laços se estreitam.

Amadurecemos.

Chega a primavera com sua brisa fresca e renovadora. Nós ficamos mais leves sem tatna roupa, as janelas se abrem e nelas se penduram cobertores e tapetes, todos querem aproveigtar a dadiva dos generosos raios de sol.

As ruas se enfeitam de flores e a cidade se enche de um bururinho alegre de novidade.

No verão os dias são mais longos, tomamos conta da rua. O riso flui mais solto e nós ficamos abertos para fazer novas amizades. As chuvas convidam para um banho.

Com rouopas leves redescobrimos o próprio corpo, andamos saltitando e o clima convida para dançar. As tardes de calor são tomadas pelo canto das cigarras.

Assim, somos camaleões, e vamos aprendendo a variar. Aprendemos a observar a natureza e esperar o seu tempo. Quando o clima toma conta da nossa vida ela se diversifica e nos tornamos personagens criativos moldados pelo calendário.


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